blog filosófico, cultural e político
Domingo, 20 de Janeiro de 2008
O PRINCÍPIO DO FIM DO QUE MAIS AMAMOS

Em conversa com o meu amigo Manuel António Pina, ultimamente muito solicitado pelos políticos em busca da legitimação dos intelectuais, manifestou-se ele esperançado de que o jornal em suporte de papel nunca morresse, porque não há nada que substitua o prazer de tactear e de cheirar o papel.

Infelizmente, não posso ser da sua opinião, eu que não consigo ler grandes textos a não ser em suporte de papel, eu que desde que tenho consciência de mim tenho vivido no prazer de tactear e cheirar o papel que serve de suporte ao que leio.

 A nova geração que começa a surgir já aprende a ler e escrever nos computadores. O prazer do tacto é, para eles, o prazer das teclas, que poderão aproximar-se dum instrumento musical qualquer. Talvez, e ainda em breve, os computadores proporcionem aos seus leitores os odores mais insólitos.

Por outro lado, talvez esta descomunal destruição da floresta, tão essencial à vida, que é indispensável para que o jornal e o livro existam,  seja visto pelas gerações futuras como um obsoleto crime ecológico.

Se a tudo isso acrescentarmos a leveza, a maleabilidade e a vastidão de conteúdos que as futuras tecnologias, com toda a certeza, irão proporcionar no domínio da informação electrónica, compreenderemos que estamos a assistir ao princípio do fim do uso em massa do suporte de papel para o jornal e o livro.

Ao princípio do fim dos pilares do que mais amamos.



publicado por henrique doria às 22:14
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4 comentários:
De Laura a 22 de Janeiro de 2008 às 13:33
Obrigada pela visita!
Parece que também eu, fiz uma bela descoberta, o teu blog!
E comentando o teu post, apesar de me entender bem com o meu pc, nada substitui o prazer de tocar, cheirar o papel, ver as letras impressas.
Aliás, eu sou do tipo de pessoa, que vai a feiras de livros antigos, e alguns dos que compro, o faço apenas pelo cheiro. E espalhados pela casa, chamo-os de meus livrinhos úteis.
Beijos e parabéns pelo blog e pela vida no campo (inveja!)


De mariamarujo a 24 de Janeiro de 2008 às 08:52
henrique
obrigada pela tua visita e o elogio é em absoluto recíproco.
este seu post deixou-me extremamente apreensiva. passo a explicar. a minha actividade profissional leva-me a tentar conduzir crianças entre os seis e os dez anos ao prazer da leitura. ora, sendo para mim um verdadeiro e intrínseco prazer, poderia parecer fácil passar a mensagem e no entanto está longe de o ser. poderia apontar inúmeros motivos, tais como os que apresentaste, no entanto, creio que ainda não se descobriu, ou melhor, eu ainda não descobri, um melhor substituto , para a construção do imaginário e do poder criativo, que o livro. passo a explicar novamente utilizando o mesmo exemplo que há poucos dias usei. quando a criança lê a palavra cão, isenta de qualquer imagem e/ou som, nada mais pode fazer que imaginar um cão. ora, as novas leituras, as novas tecnologias tendem a oferecer não só a imagem do cão, como também o som do seu ladrar. e esta oferta anula a necessidade de imaginarmos o cão. claro que este exemplo é muito redutor para um adulto, mas para a construção mental de uma criança, não vai muito mais além. o acesso e o apelo directo a diferentes sentidos em simultâneo não oferece muito espaço a que pela imaginação e pelo poder criativo de cada um a eles se possa aceder.
o que me deixou apreensiva é a validade do que referiste, pois os miúdos hoje podem fruir com o mesmo prazer do som e quiçá do cheiro do teclado, podem fruir com o mesmo entusiasmo da vastidão de criações que as novas tecnologias oferecem, da mesma forma que se podem sentir absolutamente indignados por não pensarmos na floresta e insistirmos nos nossos livrinhos..
vou ter muito que pensar. e indubitavelmente vou ter muito que aprender.


De cassamia a 2 de Fevereiro de 2008 às 21:59
olá henrique
venho aqui muitas vezes visitar-te e agora ao reler o pot lembrei-me que este ano o autor escolhido na minha biblioteca foi precisamente o pina, eu e um grupo de alunos vamos fazer uma peça de teatro sobre a importância da leitura, pegando precisamente num excerto do inventão que o pina escreveu :)


De António M. P. a 12 de Fevereiro de 2008 às 01:50
Ok, digamos. Até que está tudo certo. O jornal, o livro, o computador... Qual é o problema? Qual é a guerra? Acaso o cinema tirou o lugar ao teatro ou à fotografia? Acaso esta tirou o lugar ao desenho, à pintura? São objectos diferentes que usamos pela vantagem das suas diferenças. Até pelo cheiro, pois sim. Ou pelo peso, pelo design... E se algum destes objectos perder o seu lugar, é porque já não tem lugar, porque não faz falta. Digo eu. Escrevo eu. Aqui, porque não poderia fazê-lo num jornal de papel. Com cumprimentos. amp


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