blog filosófico, cultural e político
Sexta-feira, 21 de Março de 2008
POEMAS PREFERIDOS-Alguns

HERBERTO HELDER- Do Mundo

 

Beleza ou ciência:uma nova maneira súbita

-os frutos unidos à sua árvore,

precipícios,

as mãos embriagadas.

E os animais aprofundam-se, encurvam-se os dias,

as pêras brilham,

o teu vestido é grande se te olho devagar.

O teu corpo transmite-se ao vestido.

Penso na glória do teu corpo.

E inclina-se a luz até os dias caírem dentro dos dias invisíveis.

A terra move-se sobre os lados, ensinas-me

o que não saberei nunca:

a água ronda.

Dentro de uma zona aberta com muita força:

música,

o exercício de uma palavra maior que as outras todas,

e a minha idade - ciência tão mortal onde és

absoluta.

 

PAUL CELAN- A Rosa de Ninguém

 

QUIMICAMENTE

 

Silêncio fundido como ouro, em

mãos

carbonizadas.

Grande, cinzenta,

forma-irmã

próxima como tudo o que se perdeu:

 

Todos os nomes, todos aqueles

nomes queimados

juntamente. Tanta

cinza por abençoar.Tanta

terra ganha

sobre

os leves, tão leves

anéis

da alma.

 

Grande.Cinzenta. Sem

escórias.

 

Tu, outrora.

Tu com a flor

pálida, mordida.

Tu na torrente de vinho.

 

(Não é verdade que também a nós

nos despediu este relógio?

Bom,

bom, como a tua palavra passando por aqui morreu.)

 

Silêncio, fundido como ouro, em

mãos carbonizadas,

carbonizadas.

Dedos, finos como fumo.Como coroas, coroas de ar

ao redor--

 

Grande.Cinzenta.Sem

rasto.

Ré-

gia.

 

 

SANDRO PENA-No Brando Rumor da Vida

 

As portas do mundo não sabem

que lá fora a chuva as procura.

As procura.As procura. Paciente

afasta-se, regressa. A luz

não sabe que há chuva. A chuva

não sabe que há luz. As portas,

as portas do mundo estão fechadas:

fechadas para a chuva,

fechadas para a luz.

 

IANIS RITSOS-Grades

 

O INSACIÁVEL

 

Insaciável a dar - algumas vezes, até, coisas

que não lhe pertenciam, - como aquela montanha, por exemplo,

cor de malva no crepúsculo, com árvores de esmeralda, gravada

em vapores doirados; ou a sombra da andorinha nas espigas,

ou a forquilha caída, à noite, frente à cancela do jardim,

ou cabelos da bela mulher no acto de dizer "não".

Quanto ás suas coisa - quais suas coisas?- - não ficava com nenhuma:

Mantinha-se do quanto dava. E quando, alguma vez,

já nada tinha, cerrava os olhos, esperando

inventar algo maior do que ele próprio, e dá-lo

Precisamente então, sentia que era aquele.

 

ANNA AKHMATOVA- Mistérios do Ofício

 

ÚLTIMO POEMA

 

Um, como trovão alarmado por alguém,

Com a respiração da vida irrompe na casa,

Ri-se, vibra perto da garganta,

E redemoinha, e aplaude.

 

Outro, nascendo no silêncio da meia-noite,

Não sei de onde vem furtivo até mim,

Olha do espelho vazio

E murmura algo severamente.

 

Também alguns são assim: em pleno dia,

Quase como que sem me ver,

Fluem do papel sem nada,

Como fonte pura no barranco.

 

E eis mais: o misterioso anda por aí -

Não é um som nem uma cor, não é uma cor nem um som,

Talha-se, muda-se, entrelaça-se,

Mas às mãos vivo não se entrega.

 

Mas este!... gota a gota bebeu o sangue

como na juventude uma rapariga má - o amor,

E, não me tendo dito uma única palavra,

De novo tornou o slêncio.

 

E não soube nunca de desastre mais cruel.

Foi-se, e dele alongaram-se as pégadas

Até uma extrema extremidade,

Se sem ele...eu morro.

 

EMILY DICKINSON

 

Há uma solidão do espaço

E do mar há solidão

Solidão da morte, mas

Alegres parecerão

Comparadas à mais funda

E polar intimidade

De uma alma diante de si própria -

A Finita Infinitude.

 

CAMILO PESSANHA- Clepsidra

 

INSCRIÇÃO

 

Eu vi a luz em um país perdido.

A minha alma é lânguida e inerme.

Oh! quem pudesse deslizar sem ruído!

No chão sumir-se, como faz um verme...

 

 



publicado por henrique doria às 19:54
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2 comentários:
De mariazinha a 21 de Março de 2008 às 21:52
Gostei, Henrique. Principalmente da Emily (talvez seja o sentir feminino que me diz mais...). Obrigada pela partilha.
;)*


De mementos@uol.com.br a 23 de Março de 2008 às 04:30
Que sofisticada e bela seleção


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