blog filosófico, cultural e político
Domingo, 27 de Abril de 2008
SRI AUROBINDO-UM GUIA PARA O SÉCULO XXI

Se há  um homem, no século XX, que melhor tenha espelhado a imagem de Apolónio, esse homem foi Sri Aurobindo.

Sri Aurobindo nasceu em 1872, na Índia. Em 1879 foi para Inglaterrae  e ali fez os seus estudos até ao nível superior, tendo frequentado o King’s College de Cambridge. Essa formação permitiu-lhe unir o pensamento indu ao pensamento ocidental, em particular ao pensamento grego, língua que dominava, como dominava o inglês, que foi sua língua literária, o latim, o francês, o alemão, o espanhol e o italiano, além de dominar o sâncrito e até o tamil. Regressou à Índia em 1893, começando então a praticar o ioga.

Em 1906,  passou a dedicar-se à causa da independência da Índia, tendo assumido a sua liderança e, por isso, sido preso, mas também libertado por falta de provas. Algo de semelhante sucedeu com Apolónio que, preso por Domiciano, também este não conseguiu a sua condenação à morte como queria, tendo Apolónio organizado uma fuga que para muitos foi miraculosa.

Certo do triunfo do movimento independentista da Índia, e tendo assegurado a sua direcção, retirou-se da vida política ostensiva. Na prisão, anteviu a possibilidade de uma vida divina na terra, e começou a viagem em sua busca. Passou então a viver em Pondicherry (Índia francesa), aí tendo fundado a sua comunidade, o Ashram. Dedicou o resto da sua vida à meditação, à filosofia e à poesia.

Embora tenha influenciado Gandhi, ao contrário deste entendeu que a violência tem, por vezes, de ser combatida com a violência, apoiando resolutamente os aliados na sua luta contra os nazis, tendo então afirmado. “A guerra e a destruição são um princípio universal que governa não apenas nossa vida puramente material, como também nossa existência mental e moral. O homem não pode dar um passo à frente sem uma batalha. Não basta ter mãos limpas e almas imaculadas para que a lei da guerra e da destruição desapareçam do mundo; é preciso, primeiro, que o que está em sua base desapareça da humanidade.”

Tal como Apolónio não hesitou em recorrer ao poder das armas para resistir derrubar Nero, Vitélio e Domiciano, Aurobindo não hesitou em utilizar a força para resistir à violência nazi, tendo defendido ainda o recurso à força para derrubar o poder inglês na Índia.

Também ao contrário de Gandhi acreditava nos benefícios para a humanidade do  progresso técnico e cientifico. O seu pensamento é universalista e sincretista. Para Aurobindo, como para todo o maçon, nenhuma religião, nenhuma filosofia, nenhuma doutrina política, nenhum caminho espiritual pode pretender a supremacia absoluta  da Verdade Eterna. Esta só poderá ser alcançada através de sínteses sucessivas que contéem  sempre algo antes existente.

Como Apolónio, escreveu um enorme poema, o Savitri, a grande epopeia do século XX. Chegou a ser proposto para o Nobel da Literatura, mas faleceu em 1950 sem que esse prémio jústissimo, que em 1913 tinha sido atribuído ao seu amigo Rabindranath Tagore, lhe fosse atribuído.

Do seu pensamento, citamos os seguintes fragmentos:

”Não importa que no momento não alcancemos o alvo. Contanto que nos entreguemos à tentativa. Mesmo que avance apenas duas polegadas na estrada, mesmo isso poderá ajudar a humanidade a sair do crepúsculo em que ela se debate, e levá-la para a alegria luminosa que Deus quis para nós.”

 “O animal é um laboratório vivo no qual a natureza elaborou o homem. O homem bem pode ser um laboratório pensante e vivente, com cuja a colaboração consciente a natureza queira elaborar o Homem Divino”

”Se o homem apenas vislumbrasse quão intensas são suas potencialidades e quão infinitas são as possibilidades… porém o medo e o ceticismo prendem o homem a pastagens menores.”

”Quando a natureza se separa da sua base espiritual, começa a existir a ignorância.”

“  Todos aspiram á liberdade, e, no entanto, cada criatura ama as suas cadeias. Tal é o primeiro paradoxo e o inextrincável nó da nossa natureza.”

“ A imortalidade, a unidade e a liberdade estão em nós esperando a nossa descoberta; mas, através da alegria do amor, Deus em nós será sempre a Multitude.”

”Lembrem-se que vivem um tempo excepcional numa época única, e que têm essa grande felicidade, esse incalculável privilégio, de estarem presentes ao nascimento de um novo mundo.”

Sri Aurobindo  viu claramente visto que assistia ao fim de uma Era, aquela em que o homem acreditou na vinda de um seu Salvador.

Com Sri Aurobindo o sol saía da Casa de Peixes e entrava na Casa de Aquário. O homem começa então a acreditar que ele mesmo é um ser único e divino, e que na sua viagem vai ao encontro da sua divindade só poderendo esta ser alcançada  através dos outros homens.

Viu claramente visto, mesmo antes do surgimento desse instrumento de globalização, de realização simultânea da diversidade e da unidade  que é a internet que, como disse o seu discípulo Pierre Levy, estamos em “um desses momentos extremamente raros em que uma civilização inventa a si própria, deliberadamente”.

 Trata-se de um novo humanismo, que inclui e amplia o  socrático conhece-te a ti mesmo, do Oráculo de Delfos, para um aprendamos a conhecer-nos para pensar juntos, e inclui e amplia o cartesiano penso, logo existo, para um penso com os outros, logo existo em comunidade.

Como acima vimos, no centro de Auroville está o templo, e em volta deste, como um círculo protector, o Anel da Paz.

   construindo o Anel da Paz poderá o homem conhecer-se a si mesmo como Homem conhecendo a sua divindade, poderá o homem  encontrar como Purusha.

Mas só globalizando Auroville através dos meios que, no tempo presente, a ciência e a técnica colocaram ao nosso dispor, o homem poderá encontra-se com o Mestre Perfeito e construir com outros Mestres a Cidade Perfeita.



publicado por henrique doria às 11:16
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4 comentários:
De Pink a 29 de Abril de 2008 às 23:56
Estamos sempre a aprender!
Desconhecia este pensador e gostei de ler sobre o seu pensamento. Acho que gosto da sua mundividência.

Um beijo Pink :-)



De peach a 30 de Abril de 2008 às 00:39
Só a violência combate a violência.
e quem pensa que dar a outra face é a solulção, é no minimo ingénuo.

beijos *** :)

ah já agora, o blogspot é mais simples que o sapo, Já tive blogs em ambos, e não há comparação.


De Teresa a 2 de Junho de 2009 às 21:10
Estou a procura de uma pessoa que teria vivido, nos anos 80 em Auroville e gostaria de saber se por acaso não o conheceu ou tem seu contacto. O nome é Rafael Vasques Corona (Mali)
Teresa


De henrique doria a 14 de Junho de 2009 às 12:12
Não conheci.Infelizmente nunca estive em AUROVILLE.Mas não tardará muito a ir lá.


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