blog filosófico, cultural e político
Sábado, 17 de Maio de 2008
PENA CAPITAL ( continuação)

 

E, agora, eis-me  dentro do inferno. Um inferno em forma de maelstrom aspirando-me para o seu fundo.
No dia combinado, fui ao escritório da minha defensora para me informar das suas alegações. Assim, pensava ela, eu ficaria tranquilizado.
O escritório da advogada era uma pequena sala com uma secretária, três cadeiras para os clientes, e uma estante ao lado direito da cadeira onde se sentava a advogada. Na estante havia sobretudo livros de poesia, romances e obras filosóficas. Eu já a vira ler As Formigas, de Boris Vian, no átrio do tribunal, enquanto esperava pelo meu julgamento. E confirmou-se o meu receio. Pode ser inteligente, esta advogada, mas não será, de certeza, grande advogada. Poesia, filosofia e romance são incompatíveis com a advocacia.
Mas não foi isso que me preocupou. Preocupou-me sim o quadro enorme de madeira, com duas peças desniveladas, pintado de um amarelo mortífero
Sobre o amarelo mortífero, estava desenhada, a negro, uma Alice de pescoço enorme e fino que chegava ao cimo do quadro, uma Alice sem cabeça e com os pés pequenos encerrada num labirinto.
Fiquei logo a tremer porque pressenti o pior.
Vendo o meu desespero, a advogada que a Justiça tivera a caridade de me nomear tentou acalmar-me.
-O senhor foi vítima de uma sucessão lamentável de enganos e azares. A pena de morte há muito que está abolida. A Constituição da República proíbe-a. Mas o procurador entende que devia ser posta em vigor novamente. E, como ele e o juiz são amigos, e o juiz é muito influenciado pelo procurador, engendraram ambos um modo de o condenar à morte. Foi assim: por um lamentável erro, no seu bilhete de identidade está escrito que o senhor nasceu em 30 de Junho de 1867, e não em trinta de Junho de 1967. Foi por aqui que o procurador pegou. A lei que aboliu a pena de morte data de 1 de Julho de 1867, é o Acto Adicional iii. Como, no seu bilhete de identidade, o senhor nasceu a 30 de Junho de 1867, o juiz decidiu o seu caso estava sujeito às leis afonsinas, que obrigavam a que no processo penal se aplicasse no tempo a lei mais dura para o réu – a lei que deixou de existir no dia seguinte ao que constava no bilhete de identidade como o do seu nascimento.
O senhor matou – logo, foi-lhe aplicada a pena de morte.


publicado por henrique doria às 23:53
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3 comentários:
De ACCB a 18 de Maio de 2008 às 00:25
"Poesia, filosofia e romance são incompatíveis com a advocacia."
E com Magistratura???

Está o máximo
Mas a lei mais desfavorável não pode ser aplicada.
havia logo recurso.
Afinal parece-me mesmo que ela não é grande advogada!!!!
:-)


De Menina_marota a 25 de Maio de 2008 às 09:03
Efectivamente não era grande advogada... os dados do bilhete de identidade quando alegadamente estão errados, podem ser contestados e alterados... e cem anos de diferença notam-se... :)

E assim vai a Justiça... com um procurador e um juiz a fazer conluio… eheheh

Beijinho ;)


De 94ekahhzazie a 24 de Maio de 2008 às 16:50
";O)


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