blog filosófico, cultural e político
Domingo, 6 de Junho de 2010
MORREU VOZNESSENSKY

        

Soube pela Mila que, no dia 1 deste mês de Junho, morreu Andrei VOZNESSENSKY, um dos nomes maiores da poesia russa e universal do século XX.

Quantos dos que enchem as páginas dos jornais que lemos saberiam sequer o seu nome? Por isso a sua morte não foi notícia de jornal e, muito menos, de televisão. Mas, para quem não saiba, aqui fica a informação: o seu livro de poemas CORAÇÃO DE AQUILES  intingiu uma tiragem de 500.000 ( sim, quinhentos mil!) exemplares! VOZNESSENSKY conseguia encher um estádio com pessoas a ouvirem-no declamar os seus poemas. Em 1970, um seu livro vendeu 100.000 exemplares num só dia! Nesse dia 15 de Abril, todos os exemplares foram arrebatados das livrarias, e formaram-se bichas para os comprar. Nascido a 12 de Maio de 1933, VOZNESSENSKY era uma personalidade multifacetada: arquitecto, pintor e poeta.

Merecia tanto o Nobel como Brodsky.

Nunca foi um alinhado com o regime soviético, mantendo a sua liberdade apesar das críticas oficiais, uma delas dirigida pessoalmente por Krutchev. Foi impedido de se deslocar ao estrangeiro pelo regime soviético, mas a queda do “comunismo” foi relegando VOZNESSENSKY para a sombra.

Não deixou, porém, de ser uma voz luminosa para aqueles que o conheciam.

Escreveu um dia:

 

NOITE

 

Tantas estrelas!

Tantos micróbios nesta atmosfera

 

Mas ele será sempre um estrela a iluminar a noite dos que amam a verdade e a beleza.

 

Em sua homenagem aqui transcrevo um outro poema seu:

 

OUTONO EM CIGULDA

 

Salto para a plataforma do comboio

e digo adeus.

Adeus, Verão.

Mas já sinto saudades

Da datcha onde o martelo soa.

Fecham a minha casa de madeira.

Adeus.

 

As árvores perderam já as folhas

E agora, nuas e tristes,

São como um acordeão

sem música.

E nós, nós

também somos estranhos,

partimos,

como se fosse assim determinado,

do erg,

das mães

      e das mulheres,

assim tem sido sempre assim será.

 

Adeus, Mãe,

começas  a ficar já transparente

à janela, como num casulo.

O dia extenuou-te, certamente,

e só nos resta descansar.

 

Amigos e inimigos, good-beye!

Em breve, quando soar o silvo do comboio

vocês, aí, vão ficando para trás

e eu vou-me afastando de vocês.

 

Despeço-me da terra.

Serei talvez estrela ou salgueiro branco,

mas não irei chorar, não sou nenhum pedinte.

E agradeço à vida que passou.

 

Nos campos de combate,

tentei matar, poupando as munições,

mas não fui capaz

e pela terceira vez digo obrigado,

porque entre as pás transparentes a vista penetrava

como um punho de sangue

em luvas de borracha.

 

”Andrei Voznessensky” tu vais ficar

no rosto de quem amas

não com palavras de pedra

mas como “Andriuchka”, simplesmente.

 

Obrigado porque apareceste, e era Outono,

surgiste entre os arbustos, disseste qualquer coisa,

e arrastavas o cão pela coleira,

obrigado,

 

senti-me renascer, e foste tu

que me revelaste o Outono,

a dona de casa acordava-mos às oito,

e nos dias de festa cantava com voz rouca,

como um disco em calão,

meu amor, obrigado,

 

tal como o comboio

também tu te afastas,

foges do Outono que havia nos meus campos,

já separados, fugimos um do outro,

mas aquela casa porque não é nossa?

 

Estarás perto e longe, algures, em Vladivostoque.

 

Sei que nos iremos repartir

por homens e mulheres que surgirão mais tarde

e um de nós substituirá o outro

por entre os prados,

“a natureza tem horror ao vazio”.

 

Agradeço aos ramos que desaparecem.

Outros virão e assim eternamente.

É essa a lei que rege a natureza.

 

Uma mulher desliza pela colina

folha ou fagulha que o comboio arrasta.

 

Salva-me!



publicado por henrique doria às 16:14
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4 comentários:
De maria azenha a 7 de Junho de 2010 às 08:59
Meu querido Henrique,

luminárias ....luminárias...

beinhos, mariah


De gabriela rocha martins a 11 de Junho de 2010 às 13:11
obrigada ,Henrique por ,nas memórias ,teceres cantos

obrigada ,por nos obrigares a relembrar ,mesmo quando os outros calam
e
sobretudo
obrigada
por este magnífico hino à BELEZA e à ternura




.
um beijo ,Amigo


De ACCB a 12 de Junho de 2010 às 00:59
Obrigada :-)


De dina maria marques a 12 de Junho de 2010 às 02:34
Os poetas são estrelas que iluminam a noite dos que amam a verdade e a beleza.

Beijos.


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