blog filosófico, cultural e político
Sexta-feira, 6 de Janeiro de 2012
ESTE PAÍS É PARA CÍNICOS

                

 

                  ( artigo publicdo no semanário GRANDE PORTO de 6/1)

É difícil conceber-se mais cinismo do que o usado na comunicação de Natal de Passos Coelho. Falou em eliminar injustiças, diminuir desigualdades, democratizar a economia. Falou em confiança. Devem ter-lhe dito ao ouvido que um tal Francis Fukuyama escreveu um livro com esse título, em que demonstrava a importância da confiança para o bom funcionamento das economias e das sociedades, e Passos Coelho tirou o dito da cartola.

Era difícil ELE tirar pior coelho da cartola: que confiança merece quem chumbou o PEC III com o argumento de que trazia sacrifícios inaceitáveis aos portugueses e juros elevadíssimos, e bastaria ser ele a governar para LOGO os sacrifícios diminuírem e os juros baixarem? Que confiança merece quem aumenta a pobreza, aumenta as desigualdades, retira as possibilidades a quem está em baixo, vende o país a retalho, concentra a economia em cada vez menos, dá cada vez mais poder aos senhores do dinheiro, precariza o trabalho ao mais elevado grau, fazendo os trabalhadores perder a confiança no dia de amanhã, instaurando neles o medo e a angústia, usando técnicas de terror social e lavando os cérebros por meios de comunicação subservientes e cobardes que tem ao seu serviço?

Que confiança merece quem manda os portugueses emigrar?

É certo que os seus ministros merecem a confiança de alguns. Falemos só de dois, por não haver espaço para mais: o ministro da saúde, Paulo Macedo, merece toda a confiança dos seus antigos/futuros patrões ( ou sócios?) do grupo Mello e do grupo Espírito Santo, pois diz defender o SNS enquanto eleva os pagamentos obrigatórios para quem o usa a um nível em que se torna mais seguro recorrer aos privados desses grupos ( aliás, financiados pelo Estado), pois que se recorrer aos hospitais públicos faltam medicamentos para tratar doenças tão graves como o cancro.

O ministro das finanças Gaspar merece toda a confiança dos especuladores, banqueiros e corruptores/corruptos. Ele é o garante de que os bancos que recebem dinheiro a 1% do BCE poderão continuar a emprestar-nos dinheiro a 5% sem que no governo pestaneje. Merece a confiança de todos colocam os milhões em off-shores, como o fez hás dia o banco, sob seu comando, Caixa Geral de Depósitos, nas ilhas Caimão. Merece a confiança das gentes do BPN, dos submarinos, etc., porque não há dinheiro para contratar investigadores ou fazer tradução de documentos, o que lhes dá confiança de que os processos continuarão parados e prescreverão.

Aconselhava o Cardeal Mazzarino, primeiro ministro de Luís XIV, na sua obra Breviário dos Políticos, um manual da arte do cinismo e da manipulação para uso de aspirantes ou detentores do poder:

“Fala sempre com um ar de sinceridade. Faz crer que cada frase saída da tua boca vem diretamente do coração e que tua única preocupação é o bem comum…”

            Não creio que Passos Coelho tenha ouvido sequer falar dessa obra, embora acredite que tem uma vaga ideia de quem foi Mazzarino. Mas que sabe usar o cinismo do cardeal como um grande mestre, lá isso sabe.

 

 



publicado por henrique doria às 21:37
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1 comentário:
De Marta M a 8 de Janeiro de 2012 às 18:00
Sim, e Mazzarino sabia também a quem pressionar para continuar a obter impostos (rendas?) crescentes: a classe média que trabalharia sempre mais para manter o seu nível de vida.
"Que confiança merece quem manda os portugueses emigrar?"
Nenhuma.
Espero mais deste ano, tem que ser.
Pelo menos que haja contestação e...Alternativas.
Abraço e muito bom ano para ti.
Marta M


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