blog filosófico, cultural e político
Quinta-feira, 23 de Junho de 2005
DEVERÁ A EUROPA AJOELHAR?
A União Europeia está a atravessar uma crise como não há memória desde que foi fundada a Comunidade Económica Europeia. Trata-se, simultaneamente, de uma crise económica, de uma crise de princípios e de uma crise de vontades.
As causas da crise económica podem reduzir-se a duas, aliás interligadas: a emergência dos dois gigantes asiáticos, China e Índia, no comércio internacional, com um misto de mão de obra barata, direitos sociais reduzidos, e tecnologias modernas, que põem em causa a competitividade e o Estado Social em que se alicerçava o bem estar dos povos da União. Por outro lado, a ausência de uma política energética comum, acompanhada do galopante crescimento do consumo de petróleo por parte da China e da índia, levaram a que os custos de produção tivessem um aumento que se está a tornar insustentável para a Europa, dependente que continua a estar do consumo de petróleo.
Mas a acompanhar esta crise económica gravíssima, e a potenciar em muito os seus aspectos negativos, está uma crise de princípios e uma crise de vontades.
A crise de princípios tem-se manifestado numa enorme dificuldade de os países da União conviverem com a crescente diversidade de culturas e de religiões que para ela trazem os que vêm para a Europa para nela encontrarem o seu bem estar económico. São, particularmente, os muçulmanos que estão a provocar na Europa uma enorme crise de princípios.
Um dos pilares da Europa é a liberdade, traduzida na neutralidade religiosa do Estado. Mas como conjugar a liberdade com a neutralidade do Estado em matéria de religião?
O problema colocou-se particularmente em França quando, face à crescente invasão da escola francesa por muçulmanos e muçulmanas, estas usando o véu e o chadar, símbolos manifestos da sua opção religiosa, o Estado francês decidiu proibir o uso de símbolos religiosos na escola em defesa da sua neutralidade religiosa. Para os muçulmanos, e muitos não muçulmanos, essa lei atentava contra a liberdade das pessoas disporem de si próprias, nomeadamente vestindo-se como querem.
Terão razão estes muçulmanos e não muçulmanos que invocam a liberdade para exigirem que seja permitido às muçulmanas usarem na escola pública o véu e o chadar? Será a lei que proíbe o seu uso um atentado à liberdade?
Essa crítica deriva de uma confusão instalada sobre a liberdade, confusão essa que permite àqueles que a violam continuarem a violá-la invocando-a em sua defesa.
Obviamente que a liberdade não é um direito ilimitado. Ela tem de parar no momento em que se transforma num atentado à liberdade do outro. É essa a base de toda a política criminal de qualquer Estado. O Estado diz-nos: não podes matar porque isso vai contra a liberdade do outro. Ou diz-nos tão só: não podes andar nu na escola ou na rua porque isso vai contra o legítimo pudor do outro, ferindo aí a sua liberdade. Ou diz-nos ainda: não podes usar de meios para acabar com a liberdade política ou religiosa.
Ao usarem o véu e o chadar as muçulmanas estão a impor aos outros estudantes a presença de símbolos religiosos numa escola em que os alunos e os professores podem legitimamente não querer ser confrontados com eles, como podem, legitimamente, não querer ser confrontados com um homem ou uma mulher nua.
Mais: a obrigação, para qualquer muçulmana, de usar o véu e o chadar, é uma violação do princípio da liberdade mesmo quando por ela aceite, porque se traduz numa violação ao princípio do direito de cada um dispor do seu próprio corpo, ao PROIBIR a exposição do corpo dentro dos limites legitimamente aceites.
Mais ainda: significa a submissão da mulher ao homem para além do que é legitimamente aceite.
Daí que a Europa deva preservar, a todo o custo, a sua liberdade e os seus princípios. Sem ajoelhar perante aqueles que os ameaçam.
Ora os retrocessos a que temos vindo a assistir na construção da Europa, o recuo na vontade de avançar com uma Europa que defenda os três princípios sagrados da liberdade, da igualdade e da fraternidade, só põem em causa o futuro da brilhante civilização Europeia, o futuro de uma civilização cujos fundamentos democráticos só devemos defender e alargar, jamais claudicando perante os seus inimigos.


publicado por henrique doria às 00:08
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5 comentários:
De Anónimo a 26 de Junho de 2005 às 14:52
Bom dia Henrique, sou a Isabel do "Murcon" não encontrei o seu mail, fica ai com o meu email.
Fico à espera duma resposta via email para conversarmos.
beijosIsabel
</a>
(mailto:ifm_24p@hotmail.com)


De Anónimo a 24 de Junho de 2005 às 22:00
Dr. Henrique Dória, quero parabenizá-lo pelo brilhante texto, este é o verdadeiro embate de idéias, limpo, claro e firmado em princípios históricos que engrandecem a humanidade. Bendita seja sua espada de luz e sabedoria.Leônidas Arruda
(http://www.leonidasarruda.adv.br)
(mailto:contato@leonidasarruda.adv.br)


De Anónimo a 24 de Junho de 2005 às 22:00
Dr. Henrique Dória, quero parabenizá-lo pelo brilhante texto, este é o verdadeiro embate de idéias, limpo, claro e firmado em princípios históricos que engrandecem a humanidade. Bendita seja sua espada de luz e sabedoria.Leônidas Arruda
(http://www.leonidasarruda.adv.br)
(mailto:contato@leonidasarruda.adv.br)


De Anónimo a 23 de Junho de 2005 às 23:39
Olá!

Percebe-se a importância dada pelos quinze ao alargamento a Leste. A rapidez com que esse alargamento está a ocorrer é pertubador, por várias razões, entre as quais aquelas que apontas, mas também pela profundíssima crise de nostalgia imperial da França e Inglaterra: a França não prescinde dos intensos contributos da PAC para a sua agricultura; a Inglaterra, não prescinde do reembolso da sua contribuição líquida.
A globalização está a revelar a diferença de posicionamente entre franceses e seus aliados e os anglo-saxões e seus aliados. Esta clivagem está a ser acentuada pela emergência dos tigres asiáticos -- desta vez India, China e Paquistão.
O essencial da crise, a meu ver está no divórcio entre as elites dirigentes e os europeus.
A instituição UE terá de ser reformulada.
Regredir aos fubdadores do Trtatado de Roma e à EFTA como advertiu Freitas do Amaral.
Se as coisas estão colocadss neste pé, Henrique, poder-se-á temer o pior.
Um abraço
jose duarte
(http://melnofrasco.blogspot.com)
(mailto:josepduarte@clix.pt)


De Munássir Ebrahim a 15 de Abril de 2008 às 00:37
Caro Henrique, deixo aqui apenas uma citação do Henry Ford, proferida poucos anos antes da crise de 1929.Dizia ele, que era um burguês inteligente, segundo rezam os livros de História, relativamente a esta ciência oculta que são as operações bancárias: É bom que o povo americano não entenda como funciona o nosso sistema financeiro e monetário, porque senão havia uma revolução antes do amanhecer.E mais, quando Lincoln foi assasinado, o móbil do crime foi económico, pois este pretendia colocar no mercado títulos do tesouro à disposição do cidadão sem juros!!!Os E.U.A. foram a grande utopia do que poderia ser um belo capitalismo.Mas parece que isto desagrada, como desagradou,a amuita gente no passado.Se reparar, todas as graves crises económicas foram debeladas com duas Guerras Mundiais.Hoje, é necessário arranjar culpados para uma Terceira Guerra Mundial, e os muçulmanos são um óptimo bode expiatório.Como dizia o Cardeal Richellieu (acho que se escreve assim), não pode haver inocentes onde quer que se hajam culpados.Teremos, sabe Deus quando, um outro Holocausto.desta vez, porém, contra os irmão do Povo Judeu.Desde Abel e Caim, mais do que inimigos eram irmão(Pitigrilli).E tudo isto me dá vontade de rir e chorar ao mesmo tempo.


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