blog filosófico, cultural e político
Segunda-feira, 25 de Outubro de 2004
GOYA-Cão
Goya.Perro.guide.jpg


publicado por henrique doria às 22:52
link do post | comentar | ver comentários (3) | favorito
|

Domingo, 24 de Outubro de 2004
FÁBULA CHINESA
A centopeia era feliz, muito feliz.
Até ao dia em que um sapo faceto
Lhe perguntou: " Diz-me, por favor,
Por que ordem pões as patas."
Aquilo preocupou-a tanto e de tal modo
Que ela já não sabia mais o que fazer
E ficou imobilizada no seu buraco.


publicado por henrique doria às 23:49
link do post | comentar | ver comentários (7) | favorito
|

Domingo, 17 de Outubro de 2004
...
«Se tu soubesses», disse Deus,
«como pode ser longa a eternidade
para alguém do meu género,
que governa sozinho e sem mais lei
que o seu capricho!
Perdoa-me se foi por diversão
que te deitei ao mundo, ó meu bípede
frágil e mole, tagarela e hipócrita...
Tu és para mim um passatempo
como o besouro ou o arco-íris,
em que pus sete cores em vez de doze ou vinte.
Tomas-te a sério? Não o deves
pois acabo por matar as minhas criaturas,
tendo feras de mais
para açoitar, lá onde é o meu nada.
Confesso-te: tu és o meu preferido
entre os seres provisórios.»

ALAIN BOSQUET- O Tormento de Deus


publicado por henrique doria às 23:21
link do post | comentar | ver comentários (3) | favorito
|

Quarta-feira, 13 de Outubro de 2004
SÓ TEMOS A INDIFERENÇA DE DEUS
Só temos a indiferença de Deus
Quando os dias, coléricos, rugem
No horizonte de sangue.

Como poderemos então erguer-nos para os céus
Se os próprios anjos que nos seguem
Trazem cortada uma asa
E a outra está, de nos proteger, exangue?

HENRIQUE DÓRIA, poema incompleto escrito em 13.10.2004


publicado por henrique doria às 23:39
link do post | comentar | ver comentários (10) | favorito
|

...
"O Mundo começou sem o homem e acabará sem ele. As instituições, os costumes e os hábitos que eu teria passado a vida a inventariar e a compreender são a eflorescência passageira de uma criação em relação à qual não possuem qualquer sentido senão talvez o de permitir à humanidade desempenhar o seu papel.
...
Quanto às criações do espírito humano, o seu sentido não existe senão em relação a ele, e elas confundir-se-ão com a desordem quando ele tiver desaparecido.Se bem que a civilização, no seu conjunto, possa ser descrita como um mecanismo prodigiosamente complexo em que seríamos tentados a ver a oportunidade que o nosso universo teria de sobreviver, se a sua função não fosse senão fabricar o que os físicos chamam entropia, isto é, inércia."

CLAUDE LEVI-STRAUSS- Tristes Trópicos


publicado por henrique doria às 23:32
link do post | comentar | ver comentários (1) | favorito
|

Domingo, 10 de Outubro de 2004
GOYA-Saturno
GOYA-Saturno.jpg


publicado por henrique doria às 17:50
link do post | comentar | ver comentários (5) | favorito
|

VELUDO AZUL
No pêndulo de sangue
viera a noite inquieta
e com a noite a porta
atrás da qual os seus lábios se escondem.

Sonhara então com o vaso estanhado
onde guardava os segredos
de si próprio,
o espelho quebrado
no tecto do seu quarto
onde ele dormia de olhos abertos

e teve medo

-até que uma voz o chamou:
uma voz distante,
ferida,
nua em seu veludo azul.

HENRIQUE DÓRIA- Escadas de Incêndio


publicado por henrique doria às 17:10
link do post | comentar | ver comentários (2) | favorito
|

Quinta-feira, 7 de Outubro de 2004
...
O homem assiste à infância do Homem. Como as crianças é simultaneamente um ser cruel e terno, que sente prazer em esmagar um bicho, que sente prazer em agredir e ferir outra criança, que ri do sofrimento alheio, que sente necessidade de conquistar espaço, nem que seja pela violência, para se sentir seguro. Dizia Santo Agostinho que o pecado está presente até nas crianças de colo: o pecado da gula bem patente nelas quando sorvem com sofreguidão o seio da mãe, mesmo depois de saciadas de leite.
Santo Agostinho carregava sobre ele a obsessão do pecado, porque se considerava como tendo sido um grande pecador antes de se ter convertido. Era essa obsessão que justificava o exagero do seu exemplo.
Mas se Agostinho estivesse a pensar no homem que, desde há uma dúzia de milhões de anos, dá os primeiros passos sobre a Terra, no homem que só há trinta mil anos começou a experimentar a necessidade e o prazer da arte, sem dúvida que o homem cruel, egoísta e cínico que domina os primeiros dias da Humanidade que são os dias de hoje, seria bem a imagem da sua criança pecadora.

HENRIQUE DÓRIA


publicado por henrique doria às 23:32
link do post | comentar | ver comentários (2) | favorito
|

...
Nós, os portugueses, de maus imitadores que somos de tudo e de todos, tiramos uma lição: não sabemos imitar bem senão os portugueses.

AGUSTINA BESSA LUÍS- Contemplação Carinhosa da Angústia


publicado por henrique doria às 23:07
link do post | comentar | ver comentários (1) | favorito
|

Terça-feira, 5 de Outubro de 2004
UMA HISTÓRIA NUM CONGRESSO SEM HISTÓRIA
O décimo quarto Congresso do Partido Socialista que decorreu em Guimarães foi um congresso sem história, na medida em que a sua história foi toda escrita antes dele. Mas, apesar disso, foi palco de um facto muito importante pela negativa: o discurso de apresentação da moção de José Sócrates feito por Jaime Gama.
Manuel Alegre classificou esse discurso como podendo ter sido subscrito por Cavaco Silva. Tal afirmação foi interpretada por alguns analistas e partidários de Sócrates como um desabafo de despeito por quem tinha perdido as eleições para Secretário Geral do Partido Socialista.
Mas se nos libertarmos desse preconceito e analisarmos bem o discurso de Jaime Gama, talvez cheguemos a esta conclusão mais dura do que aquela a que chegou Alegre: nem Cavaco Silva escreveria aquele discurso. Seria necessário pedirmos a Durão Barroso para o fazer.
Senão vejamos.
Gama começou o seu discurso por afirmar aquela que, no seu entender, é a posição do Partido Socialista no espectro político nacional. O Partido Socialista, segundo Gama, não é o partido de uma ou de algumas classes, mas um partido de todo o povo.
Esta frase, partido de todo o povo, que em Jaime Gama certamente não é inocente, tem uma história. E supomos que Gama não a ignorará.
No final dos anos sessenta do século passado, Leonid Brejnev, Secretário Geral do Partido Comunista da União Soviética, fez alterar a concepção do Partido, que se considerava como partido da classe operária, para partido de todo o povo. Na terminologia marxista-leninista, significava isto que a classe operária deixara de existir como classe distinta na União Soviética, o que, segundo Marx e Lenine só aconteceria com o advento do comunismo, isto é, com o desaparecimento das classes e do Estado. Mas Brejnev, numa revisão da doutrina, antecipava o fim da história, e afirmava que na União Soviética todos eram iguais, tudo era povo.
Bem sabia Brejnev e a numenklatura que assim não era, que a União Soviética era dominada por uma poderosa oligarquia que chamava para si o essencial dos benefícios, particularmente os económicos, do poder.
Mas quis com a revisão da doutrina oficial dizer à classe operária e às classes médias da União Soviética que era legítimo o governo da oligarquia, porque esta também fazia parte dessa amálgama que é todo o povo.
Gama fez agora o mesmo: o Partido Socialista, segundo Gama, deixou de se dirigir preferencialmente à classe operária e às classes médias para se dirigir a todo o povo.
Mas como todo o povo português não tem uma única voz, mas vozes distintas, e que quem faz ouvir a sua voz no poder é a oligarquia que nos governa – na realidade os Jardim, os Mello, os Champallimaud, os Espírito Santo, os Azevedo, e muito poucos mais – Jaime Gama disse, por outras palavras, que o Partido Socialista deve é falar para estes, ou melhor, através destes.
E assim, na visão de Gama, o Estado deve ser limitado, como dizem todos os oligarcas que citámos. Isto é, deve deixar para a oligarquia tudo o que dá lucro, e deve fazer com que tudo dê lucro.
Por exemplo: a Saúde tem de dar lucro.
Daí os hospitais empresa e a sua entrega aos Mello que os fazem dar lucro, nem que seja o Estado, isto é, cada um de nós, a pagar esse lucro, como sucedeu com as contas desses hospitais que de um saldo positivo inicialmente propagandeado pelo ministro Pereira, passou para um saldo negativo de centenas de milhões de euros depois de feita a revisão das contas.
E quem diz a Saúde, diz a Educação, diz a Cultura, diz a Defesa, etc.
Como Durão Barroso, como esses oligarcas, Gama insiste nas reformas que é necessário fazer para que tudo dê lucro, para que o Estado não seja mais do que um instrumento mínimo para auxiliar a que tudo dê lucro para essa oligarquia.
Para minorar os efeitos da pobreza, o Estado deverá apenas levar a cabo uma política MÍNIMA de assistencialismo, uma nova espécie de sopa dos pobres.
O papel que Jaime Gama atribui ao Partido Socialista não é um papel de combate às enormes desigualdades, mesmo à enorme miséria que existe na sociedade portuguesa.
Note-se que Gama, no seu discurso, nem sequer falou num diálogo com os sectores empresariais que na sociedade portuguesa são capazes da inovação e do risco, naqueles que não precisam das negociatas com o Estado e do descarado privilégio que deste conseguem para prosperarem.
Gama, se analisarmos com atenção o seu discurso, disse que o Partido Socialista deve falar preferencialmente com aqueles mesmos sectores que, antes do 25 de Abril, dominavam a sociedade portuguesa e que continuam agora a dominá-la - sempre com o apoio do Estado que dizem combater.
É isto que tem feito Tony Blair, quer em política interna quer em política externa, aliando-se a Bush.
E parece que, para a linha agora triunfante no Partido Socialista, Blair é o grande exemplo.

HENRIQUE PRIOR


publicado por henrique doria às 23:41
link do post | comentar | ver comentários (2) | favorito
|

mais sobre mim
pesquisar
 
Dezembro 2017
Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2

3
4
5
6
7
8
9

11
12
13
14
15
16

17
18
19
20
21
22
23

24
25
26
27
28
29
30

31


posts recentes

DESTINADOS À TERRA

CHINESICE

FRAGMENTO

FRAGMENTO

POBRE AVÓ QUE ORA

SOMOS APENAS ÁGUA

FRAGMENTO

FRAGMENTO

CORREM EM MIM TRÊS RIOS

EM MEMÓRIA E LOUVOR DE AL...

arquivos

Dezembro 2017

Outubro 2017

Agosto 2017

Julho 2017

Junho 2017

Maio 2017

Abril 2017

Março 2017

Fevereiro 2017

Janeiro 2017

Dezembro 2016

Outubro 2016

Setembro 2016

Julho 2016

Junho 2016

Maio 2016

Abril 2016

Fevereiro 2016

Janeiro 2016

Dezembro 2015

Outubro 2015

Agosto 2015

Julho 2015

Junho 2015

Maio 2015

Abril 2015

Janeiro 2015

Dezembro 2014

Novembro 2014

Outubro 2014

Setembro 2014

Agosto 2014

Julho 2014

Junho 2014

Maio 2014

Abril 2014

Março 2014

Dezembro 2013

Novembro 2013

Setembro 2013

Agosto 2013

Julho 2013

Junho 2013

Abril 2013

Março 2013

Dezembro 2012

Outubro 2012

Setembro 2012

Junho 2012

Maio 2012

Abril 2012

Março 2012

Fevereiro 2012

Janeiro 2012

Dezembro 2011

Novembro 2011

Outubro 2011

Setembro 2011

Agosto 2011

Julho 2011

Junho 2011

Maio 2011

Abril 2011

Fevereiro 2011

Janeiro 2011

Dezembro 2010

Novembro 2010

Outubro 2010

Setembro 2010

Julho 2010

Junho 2010

Maio 2010

Abril 2010

Março 2010

Fevereiro 2010

Janeiro 2010

Dezembro 2009

Novembro 2009

Outubro 2009

Setembro 2009

Agosto 2009

Julho 2009

Junho 2009

Maio 2009

Abril 2009

Março 2009

Fevereiro 2009

Janeiro 2009

Dezembro 2008

Novembro 2008

Outubro 2008

Setembro 2008

Agosto 2008

Julho 2008

Junho 2008

Maio 2008

Abril 2008

Março 2008

Fevereiro 2008

Janeiro 2008

Dezembro 2007

Novembro 2007

Outubro 2007

Setembro 2007

Agosto 2007

Julho 2007

Junho 2007

Maio 2007

Abril 2007

Março 2007

Fevereiro 2007

Janeiro 2007

Dezembro 2006

Novembro 2006

Outubro 2006

Setembro 2006

Agosto 2006

Julho 2006

Junho 2006

Maio 2006

Abril 2006

Março 2006

Fevereiro 2006

Janeiro 2006

Dezembro 2005

Novembro 2005

Outubro 2005

Setembro 2005

Agosto 2005

Julho 2005

Junho 2005

Maio 2005

Abril 2005

Março 2005

Fevereiro 2005

Janeiro 2005

Dezembro 2004

Novembro 2004

Outubro 2004

Setembro 2004

Agosto 2004

Julho 2004

Junho 2004

Maio 2004

Abril 2004

Março 2004

blogs SAPO
subscrever feeds