blog filosófico, cultural e político
Domingo, 16 de Março de 2008
MARIA

Ida para Lisboa na sexta, apresentar o novo livro de poemas de um dos seres luminosos que  tenho a felicidade de conhecer: a Maria Azenha.

A Maria é uma mulher bela. Mas mais, muito mais do que isso: a ela aplicam-se os versos da divina Safo:

" O que é belo, é belo de ver, e basta.

Mas o que é bom, subitamente será belo."

 A CHUVA NOS ESPELHOS é um belísimo livro de poemas.

Não posso deixar de transcrever aqui uma parte do prefácio que tive a alegria de escrever para o livro:

 

" O espelho é o lugar onde nos conhecemos. A imagem do homem é-lhe dada pela água em repouso e pela luz que nela se reflecte. O espelho é umas vezes o símbolo do sol, a luz original, o elemento masculino e forte, outras o símbolo da lua, o elemento feminino e suave. Mas o espelho de Maria é um raríssimo espelho onde se encontram a força e a sauvidade.

 

Aqui transcrevo um dos poemas de Maria:

 

 SONHO

 

estamos na sala as três

encontro três pedras negras

três romãs

três túnicas brancas pousadas num cubo

 

as três pedras negras

são mais negras que o caminho

as três romãs pendem do escuro

as três túnicas brancas são do mais puro linho

 

uma é de criança

outra para brilhar num lago

a terceira foi talhada

na mais hábil folha de nevoeiro

 

esvoaçam de sala em sala

bordadas a noite inteira

 

parto de manhã

deixo a casa

 

só o riso das crianças

nos seus cadernos de água.

 



publicado por henrique doria às 13:25
link do post | comentar | ver comentários (1) | favorito
|

Domingo, 9 de Março de 2008
PARE, ESCUTE, E PENSE SR.ª MINISTRA

1-A formidável manifestação dos professores deveria, como manda o mais elementar bom senso, fazer com que a Ministra da Educação e o Primeiro Ministro parassem, nem que fosse por pouco tempo, para escutarem, pensarem, e decidirem o que está mal na lei de avaliação dos professores e necessita de ser alterado.

Porque algo está mal nesse processo, senão nunca ele mobilizaria praticamente toda uma classe que, quer se queira quer não, é das melhor informadas neste país.

Pensar e dizer que  quase toda a numerosa classe profissional dos professores, com as qualificações intelectuais que tem, ou DESCONHECE os termos em que a sua avaliação profissional se processará, ou está apenas a defender INTERESSES PARTICULARES de classe, e é por isso que se manifesta contra,  é simples arrogância e/ou autismo.

E lidar com os professores com arrogância ou autismo está demonstrado que não resulta.

2- Porque há algo de muito importante na avaliação dos professores, tal como o governo a pretende levar a cabo, que está mal. E o que está mal trará graves e perververas consequências para alunos e para o ensino.

O que está mal no processo de avaliação dos professores é eles serem avaliados pelos resultados dos alunos.

O que parece uma medida óbvia, só o é para quem, tendo toda a sua experiência profissional no ensino superior, DESCONHECE a realidade dos ensinos básico e secundário, apesar de ser Ministra.

Os resultados no ensino básico e secundário não são os resultados no ensino superior, numa empresa, e, muito menos, num jogo de futebol.

Um professor que apresenta maus resultados ( isto é, más notas) pode ser um excelente professor, e o que apresenta boas notas pode ser um péssimo professor.

Basta que o que apresenta más notas seja honesto e rigoroso, e o que apresenta boas notas o faça para ter uma boa avaliação e não ter o trabalho de preencher a papelada sem fim que o dar notas negativas implica no ensino básico e secundário,  papelada essa cuja existência a Sr.ª Ministra parece desconhecer.

3- Responde a Sr.ª Ministra que a avaliação mede a progressão dos resultados dos alunos e não os resultados em si.

Mas volta a estar errada a Sr.ª Ministra:

Basta que o procedimento descrito se dê em relação a dois professores da mesma turma, e da mesma disciplina dois anos seguidos, e o professor do primeiro ano ter dados bos notas pelas razões referidas, e o do segundo ter dado má notas pelas razões referidas, para se cometer uma grave injustiça.

E a injustiça relativa volta a verificar-se mesmo em relação às turmas com bons ou excelentes resultados Um professor simplesmente razoável mantém os resultados elevados numa boa turma, e um excelente professor, porque é um pouco mais exigente, mantém esses resultados apesar de os alunos terem progredido mais em conhecimentos comparativamente aos conhecimentos adquiridos com o outro professor. Mas com o sistema em vigor ambos são avaliados com os mesmos resultado.

4-Quem, como eu, passou pelo Liceu D. João III, em Coimbra, e não se lembra do Dr. Alberto Martins de Carvalho,  de saudosa memória, um dos homens sábios deste país, um grande professor, cujos alunos tinham fracos resultados face aos de outros professores da mesma disciplina?

Este sistema de avaliação implica que alguém com o nível intelectual de Alberto Martins de Carvalho fosse avaliado negativamente pelos resultados, enquanto que outros professores, inquestionavelmente menos competentes, seriam avaliados positivamente pelos resultados.

5-Porém, a pedra de toque deste sistema de avaliação não são os resultados perversos e injustos a que ele conduz na avaliação dos professores, como antes vai demonstrado, é antes a DEGRADAÇÃO DA QUALIDADE DO ENSINO que implica.

O problema aqui é idêntico ao da participação dos pais na avaliação dos professores.

O resultado deste sistema de avaliação é colocar  o ensino e os professores na dependência dos alunos e dos pais dos alunos.

Como é mais que sabido, o que estes últimos querem, salvo raras excepções, é notas positivas, independentemente da as merecerem ou não.

E, ao permitir que assim seja, a Sr.ª Ministra está a colocar o poder das escolas na rua, algo semelhante ao que afirma que o governo não aceita no que toca às pretensões dos professores.

Pior: está a contribuir para a degradação do sistema de ensino, que é o que pretende combater.

6- Só haveria uma forma de os resultados avaliarem o mérito real do ensino de cada professor, quer por si, quer comparativamente a outros professores, quer no que toca à progressão dos seus alunos na aprendizagem: seria a realização de provas globais anível nacional todos os anos. Aí sim, os resultados seriam testados com objectividade mínima para serem válidos. Aí sim, professores do nível do Dr. Alberto Martins de Carvalho teriam o excelente, e outros professores vulgares classificação inferior, como seria justo.

7-Não o fazendo, a melhor  decisão da  Sr.ª Ministra e do Sr.ª Primeiro Ministro é revogar este parâmetro da avaliação dos professores, não só para pacificar a escola, como, e sobretudo, para não degradar, mas antes elevar o nível de qualificação do sistema de ensino.



publicado por henrique doria às 11:14
link do post | comentar | ver comentários (5) | favorito
|

Sábado, 8 de Março de 2008
A MORTE DA IDEIA DE DEUS


publicado por henrique doria às 09:16
link do post | comentar | favorito
|

A MORTE DA IDEIA DE DEUS

Sou, com muita honra, um ateu militante, embora não fanático. E sou assim por imperativo moral, nunca ninguém me pagou por isso. A minha consciência não se afere por dinheiro, como, por exemplo, Fátima, o Vaticano ou Meca.
As religiões sempre foram, e continuam a ser, as causas ( mesmo que por simples pretexto)dos maiores crimes contra a humanidade. Nem sequer preciso de dar exemplos para o provar. É facto notório para quem não é ignorante, ou falsário, ou idiota.
Por isso, embora Deus não esteja morto, não só porque nunca existiu mas porque a ideia de Deus e a multidão dos homens que ela arrasta são cada vez menores, é notório também que os crimes praticados em honra de Deus vão sendo cada vez menores.
Os crimes contra a humanidade praticados, nos nossos dias,em honra de Alá são a fase final, simultâneamente patética e caricata, do estertor da ideia de Deus.



publicado por henrique doria às 08:51
link do post | comentar | favorito
|

Domingo, 2 de Março de 2008
PENA CAPITAL (cont.)

Ao lado do procurador, aquele que pedira a minha condenação à pena capital, estava uma rapariguinha de pele muito branca e óculos redondos, mas que não estava vestida de preto como os dois homens que me condenaram. Não percebia a razão de aquela criança estar naquele lugar, mas parecia-me que era a asa boa de um anjo maléfico, e isso fez com que, durante o julgamento, me tivesse dirigido a ela mais do que aos homens de negro, nas poucas vezes que falei. Enquanto o procurador exibia, depois da sentença, um sorriso triunfante, a rapariguinha, que nunca se pronunciara durante a audiência, ficou perplexa, e voltando o rosto para o tecto disse em sussurro-Maldoror.

Esta palavra, que eu nunca tinha ouvido, causou-me maior inquietação. A advogada notou a minha súbita preocupação, e como não tinha escutado aquela palavra da rapariguinha pensou que a minha angústia, que passara a ser bem visível, era causada pela sua inexperiência. Tentou então tranquilizar-me:

- Vou trabalhar noite e dia no seu recurso. Para mim é também uma questão de vida ou de morte. Vá ao meu escritório daqui a sete dias para ler o recurso e perceber melhor que a sentença está revogada por natureza.

Perguntei-lhe logo o que é que aquela menina queria dizer com Maldoror. Receosa de que eu tivesse sido escutado ao pronunciar a palavra menina, a advogada corrigiu-me baixinho. Não é menina. É juíza estagiária. Está com pena de si.

-Mas disse Maldoror. O que significa isso? - Não ouvi nada. Deve ser o senhor que está nervoso.

Em vez de me acalmar, este breve diálogo em surdina deixou-me ainda mais inquieto, pois tinha a certeza de que ouvira aquela palavra que me tinha soado a magia negra.

(continua)

 



publicado por henrique doria às 10:09
link do post | comentar | favorito
|

mais sobre mim
pesquisar
 
Outubro 2017
Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2
3
4
5
6
7

8
9
10
11
12
13
14

15
16
17
18
20
21

22
23
25
26
27
28

29
30
31


posts recentes

CHINESICE

FRAGMENTO

FRAGMENTO

POBRE AVÓ QUE ORA

SOMOS APENAS ÁGUA

FRAGMENTO

FRAGMENTO

CORREM EM MIM TRÊS RIOS

EM MEMÓRIA E LOUVOR DE AL...

OLHO PARA MIM

arquivos

Outubro 2017

Agosto 2017

Julho 2017

Junho 2017

Maio 2017

Abril 2017

Março 2017

Fevereiro 2017

Janeiro 2017

Dezembro 2016

Outubro 2016

Setembro 2016

Julho 2016

Junho 2016

Maio 2016

Abril 2016

Fevereiro 2016

Janeiro 2016

Dezembro 2015

Outubro 2015

Agosto 2015

Julho 2015

Junho 2015

Maio 2015

Abril 2015

Janeiro 2015

Dezembro 2014

Novembro 2014

Outubro 2014

Setembro 2014

Agosto 2014

Julho 2014

Junho 2014

Maio 2014

Abril 2014

Março 2014

Dezembro 2013

Novembro 2013

Setembro 2013

Agosto 2013

Julho 2013

Junho 2013

Abril 2013

Março 2013

Dezembro 2012

Outubro 2012

Setembro 2012

Junho 2012

Maio 2012

Abril 2012

Março 2012

Fevereiro 2012

Janeiro 2012

Dezembro 2011

Novembro 2011

Outubro 2011

Setembro 2011

Agosto 2011

Julho 2011

Junho 2011

Maio 2011

Abril 2011

Fevereiro 2011

Janeiro 2011

Dezembro 2010

Novembro 2010

Outubro 2010

Setembro 2010

Julho 2010

Junho 2010

Maio 2010

Abril 2010

Março 2010

Fevereiro 2010

Janeiro 2010

Dezembro 2009

Novembro 2009

Outubro 2009

Setembro 2009

Agosto 2009

Julho 2009

Junho 2009

Maio 2009

Abril 2009

Março 2009

Fevereiro 2009

Janeiro 2009

Dezembro 2008

Novembro 2008

Outubro 2008

Setembro 2008

Agosto 2008

Julho 2008

Junho 2008

Maio 2008

Abril 2008

Março 2008

Fevereiro 2008

Janeiro 2008

Dezembro 2007

Novembro 2007

Outubro 2007

Setembro 2007

Agosto 2007

Julho 2007

Junho 2007

Maio 2007

Abril 2007

Março 2007

Fevereiro 2007

Janeiro 2007

Dezembro 2006

Novembro 2006

Outubro 2006

Setembro 2006

Agosto 2006

Julho 2006

Junho 2006

Maio 2006

Abril 2006

Março 2006

Fevereiro 2006

Janeiro 2006

Dezembro 2005

Novembro 2005

Outubro 2005

Setembro 2005

Agosto 2005

Julho 2005

Junho 2005

Maio 2005

Abril 2005

Março 2005

Fevereiro 2005

Janeiro 2005

Dezembro 2004

Novembro 2004

Outubro 2004

Setembro 2004

Agosto 2004

Julho 2004

Junho 2004

Maio 2004

Abril 2004

Março 2004

blogs SAPO
subscrever feeds