blog filosófico, cultural e político
Sábado, 24 de Outubro de 2009
SARAMAGO E DEUS

Pouco falta para Saramago ser lançado à fogueira por ter afirmado uma verdade evidente: que a Bíblia é um "manual de maus costumes."

Esta afirmação é de uma verdade tão evidente, que só por ignorância, má fé ou ingenuidade se pode dizer o contrário.

Infelizmente, quase todos os que se dizem católicos, incluindo muitas luminárias que aparecem em público a dar palpites, nunca leram a Bíblia. Porque se a lessem sem preconceitos perceberiam que o Deus do Antigo Testamento não passa de um tiranete de uma tribo de beduínos.

É claro que, ingenuamente, ou por interesse, sempre poderão dizer os seguidores das religiões hebraico-cristãs que a Bíblia não pode ter uma leitura literal, que tem de ser lida como obscura,e até insondável, palavra de Deus que os pobres mortais não podem alcançar.

Curiosamente, são esses que entendem que as passagens da Bíblia mais agradáveis à sua consciência podem ser tomadas à letra, e que Cristo usou uma linguagem simples para ensinar os homens.

Mas vamos ao que lá está escrito para verifircarmos a razão de Saramago.

Desde logo, os direitos dos descendentes de Israel, isto é, de Jacob, isto é, toda a narrativa bíblica, assenta numa miserável fraude. Israel, industriado por sua mãe Rebeca, que o preferia ao outro filho Esaú, que, por sua vez, era o preferido do cego Isaac, seu pai, monta uma burla para enganar o pai, fazendo-se passar pelo irmão, cobrindo as mãos e o pescoço com uma pele de carneiro (pois o irmão era peludo) para obter do pai a benção a primogenitura e a benção que lhe davam o domínio sobre a família e o direito a dois terços da herança, que o pai destinara ao primogénito Esaú.

É sobre essa vigarice aprovada pelo Senhor que se constrói a casa de Israel e toda a narrativa bíblica.

Daí para a frente é um desenrolar de traições, de crimes e de burlas sobre as quais assentou o poder da casa de Israel, passando pela divisão em dois reinos, de Israel e de Judá, até ao fim da independência de ambos os reinos ( se é que alguma vez foram verdadeiramente independentes, e não foram sempre tributários de outros reinos, nomeadamente do Egipto).

Então aquele que é tido como exemplo de uma grande e bom rei, tão bom que dele descende Cristo, segundo os Evangelhos, é um exemplo de mau carácter a todos os títulos condenável. Afasta pela intriga os descendentes de Saúl, é pedófilo, assassino, injusto, entre um imenso rol de defeitos.

E, dizer-se que era um grande rei, é algo de ridículo. Israel, no seu período de maior expansão, nunca foi sequer do tamanho de metade de Portugal.

Mas basta citar duas passagens bíblicas para se perceber quanto o Deus dos Judeus é mau e cruel.

1ª Passagem: JOSUÉ, 6, 20-21:

" A CONQUISTA DE JERICÓ...as muralhas da cidade desabaram e os filhos de Israel subiram à cidade...

Tomaram a cidade e votaram-na ao anátema passando a fio de espada tudo o que nela  encontraram: homens, mulheres, crianças, velhos, inclusivamente os bois, as ovelhas e os jumentos."

2ª passagem: DEUTERONÓMIO, 28, 15-27:

"Mas, se não escutares a voz do Senhor, teu Deus, se não praticares todos os Seus preceitos e as Suas leis, todas estas maldições virão sobre ti e serão tua partilha.Malditos serão o fruto das tuas entranhas, o fruto do teu solo, a prole dos teus touros e as crias das tuas ovelhas...

O Senhor enviar-te-á a peste...ferir-te-á com a consumpção, com a febre, com inflamações de toda a espécie...afligir-te-á com a úlcera do Egipto, com hemorróidas, com a sarna seca e húmida..."

Votar cidades ao anátema, para os Judeus era cumprir uma ordem divina.

As hemorróidas eram também um castigo divino.

É claro que se pode ler isto a uma luz insondável aos mortais.

Mas aqueles que não dispõem de qualquer sonda, aqueles que não vêem no túnel qualquer luz mas apenas hemorróidas, esses não poderão deixar de afirmar, se forem homens de pouca fé mas de bons princípios e bons costumes, que a Bíblia é um "manual de maus costumes".



publicado por henrique doria às 17:00
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Sexta-feira, 16 de Outubro de 2009
EU DEVERIA PASSAR POR MIM

William Blake

(fragmento)

 

Eu deveria passar por mim

Montado num cavalo amarelo

E dizer-me Adeus Adeus Adeus.

Mas sempre me repugnaram os poderosos

Castrados de olhos duros

Que se alimentam de carne e sangue

Dobrados nas suas bigornas.

 

Então esta noite sentei Belzebu nos meus joelhos

Cortei-lhe o sexo com o sílex solar

Injuriei-o amarrei-o

À cadeira de ferro ardente

E tudo porque ele comera o meu coração.

 

Ando agora à procura de Deus: isto é ridículo

Como são ridículos as trevas e os pulsares

Os falcões e as fumarolas

Deus que me ama tanto até me tornar

Em pó e alimento dos santos.

...



publicado por henrique doria às 23:18
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Sábado, 3 de Outubro de 2009
FAÇO-ME A INJÚRIA DE ACREDITAR

Impõem os carris

Da noite ao leito da terra

 

Mas a esses que são  o alimento

Das galés eu sigo

Com a minha raiva e as minhas cadeias.

 

Faço-me a injúria de acreditar

E planto soldados em fila

Rumo ao sol.

 

Coração ânfora repetida

Regam os teus sonhos com absinto.

 

Oh meu cavalo dentro das nuvens

Um dia hás-de parar

Sobre o abismo divino

 

A crina às portas do céu.



publicado por henrique doria às 23:08
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