blog filosófico, cultural e político
Domingo, 13 de Março de 2005
O NOSSO EU
Temos tendência para pensar no nosso eu como a única criação totalmente singular que existe na natureza, embora isto não seja assim. A singularidade é a característica de tal modo comum nos seres vivos que acaba por não ter nada de singular...Até as bactérias isoladas, movendo-se livremente, podem ser consideradas entidades singulares, que se distiguem das outras mesmo quando tiveram origem no mesmo clono....Quando procuram alimento, alguns precipitam-se numa direcção durante um número exacto de segundos antes de desistirem, enquanto outros se deslocam de maneira diferente, por períodos diversos, embora igualmente característicos...
Os feijões têm etiquetas próprias que os caracterizam tão distintamente como um rato é caracterizado pelo seu cheiro...
Os pólipos dos corais são biologicamente conscientes do seu eu...
Os peixes podem identificar-se mutuamente pelo seu cheiro. O mesmo acontece com os ratos...
As únicas unidades vivas que parecem não ter qualquer sentido da privacidade são as células nucleadas que foram separadas do organismo que lhes deu origem...Se lhes for dada a oportunidade...duas células de origens completamente diferentes, por exemplo uma célula de levedura e um eritrócito de galinha, tocam-se, fundem-se e os dois núcleos fundem-se igualmente; então a nova célula híbrida reproduz-se, dando origem a um descendência monstruosa....
Os traços característicos do eu... são...considerados como mecanismos destinados a manter a individualidade como um fim em si mesmo, permitindo que qualquer tipo de ser se defenda e proteja contra tudo o que lhe é alheio.
Porém...(as) anénomas que vivem nas carapaças dos caraguejos são extremamente meticulosas, o mesmo acontecendo com os próprios caranguejos.Uma única espécie de anénoma procura uma única espécie de caranguejo...
Por vezes, há tal fusão de identidades que dois seres ...se associam de modo a produzirem um organismo único. A melhor história que ouvi a este respeito foi a do nudibrânquio e da medusa que vivem na baía de Nápoles. Quando foi observado,...o nudibrânquio, um vulgar caracol do mar, tinha um pequeno parasita residual, sob a forma de alforreca, permanentemente fixo na sua superfície ventral, perto da boca...O parasita, embora tão aparentemente especializado que desistira de viver por si próprio, ainda conseguia produzir descendência, que se encontra em abundância em certas estações do ano... Entretanto, o caracol produz larvas e estas começam também a crescer normalmente, embora não durante muito tempo. Quando são ainda muito pequenas, ficam aprisionadas pelos tentáculos da medusa, sendo em seguida absorvidas pelo seu corpo....à primeira vista, poder-se -ia pensar que as medusas são agora os predadores...e os caracóis as presas. Mas não é assim. A breve trecho, os caracóis que não foram assimilados pela medusa...começam a comer ( a alforreca)...de tal modo que a alforreca se vai reduzindo em tamanho, enquanto as dimensões do caracol aumentam proporcionalmente. Finalmente, tudo volta ao princípio, com um nudibrânquio completamente desenvolvido...nada restando da alforreca... a não ser o parasita redondo...perto da boca do molusco.
...
Pensar nestes seres provoca-me uma sensação estranha. No fundo, eles não me fazem lembrar nada. É isso, são bizarros, singulares. E, ao mesmo tempo, como um sonho de que nos recordamos vagamente, fazem-me lembrar o mundo inteiro...

LEWIS THOMAS-A Medusa e o Caracol


publicado por henrique doria às 14:16
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8 comentários:
De Anónimo a 21 de Março de 2005 às 17:56
A vida esmiuçada na missanga dos sistemas é sempre interessante. Os processos biológicos são isso mesmo. Just. Qualquer semelhança com a Humanidade não é pura coincidência. Certo? MJM
(http://babylonia.blogs.sapo.pt/)
(mailto:cacooco@hotmail.com)


De Anónimo a 21 de Março de 2005 às 17:54
A vida esmiuçada na missanga dos sistemas é sempre interessante. Os processos biológicos são isso mesmo. Just. Qualquer semelhança com a Humanidade não é pura coincidência. Certo? MJM
(http://babylonia.blogs.sapo.pt/)
(mailto:cacooco@hotmail.com)


De Anónimo a 16 de Março de 2005 às 20:12
As Escritas do Mestre

Canto I

O Comandante Guélas é o Profeta do Levante, que pugna, acima de tudo, pelos grandes valores universais, transcendendo culturas, países e religiões. Na sua obra oral, além da paixão pela sua figura no espelho, encontram-se ecos da poética Sufi e Paço Arquiana, sobretudo Milhista. No entanto, a todas incorporou com um sentido muito próprio, dizendo a este propósito:

"A minha doutrina diz que apenas existe uma única religião abstracta e absoluta, na qual as manifestações são múltiplas - o Guélanismo. Porque somos todos filhos de Paço de Arcos, e as diversas ruas representam os diferentes dedos da única mão amorosa do Guélas Supremo, que se dirige na vossa direcção com ardor, para nos guiar à braguilha das calças".

Considerado por todos os Paço Arquianos como um profeta dos tempos modernos, o Comandante Guélas tem sempre um largo acolhimento na Net, pois a sua obra pictórica e escrita funcionam como um todo. As escritas do Comandante Guélas têm como primado causas justas, que levam os leitores a nunca mais o quererem deixar de ler.

Livros do Comandante Guélas

"A pedra Marcada pela Insistência das Mijas"

Aqui o Bajoulo afirma a partir de uma pedra marcada por séculos de mijas de Paço Arquianos, estar "cansado", sem "tesão", "à rasca do cu", onde uma voz tremida pela Besana é interrompida pelo relâmpago dum peido de companhia, que lhe dá um certo amparo naquela noite fria, em cima da V5 gamada em Monte Gordo e escondida na casa do Conan. É neste momento que ele escreve na pedra o nome da Tita com um jacto de mijo. No dia seguinte o tesão de mijo aparece como um esforço de dor, uma tensão estética, uma espécie de música partida no extermínio do quotidiano pessoal.

"O horror. A fotografia parada do horror. A Tita está nua a seus pés. E nele, encerrado, o grito. O corpo parece o de um bacalhau Pascoal, o tamanho das unhas dos pés dão a ideia de uma águia".

Aqui a imagem do Paço Arquiano Bajoulo é clara, rigorosa e final, como a Verdade. É uma forma de a arte estar a comprometer-se com os outros a partir do dentro de um só. É o sábio grito de Epicteto!

"O chão serviu-lhe de Cama"

É uma obra breve, muito breve, porque o herói se chama Milhas, e é o Paço Arquiano mais complexo. É um herói da tragédia antiga no âmago da sua destruição. Milhas é um real sem saída.

"O Senhor Peido"

Trata-se de um escrito de prosa, em estrofes, dos flatos do Graise, carregado de uma meditação reiterativa que recusa reivindicar-se de "fenomenal", para se afirmar enquanto "resistência em face da ameaça". Graise está sempre alerta!

Brigada Balatuca
(http://www.riapa.pt.to)
(mailto:riapa@sapo.pt)


De Anónimo a 15 de Março de 2005 às 20:48
(...)um texto diferente, singular ou não?
as analogias são interessantes,mas são só analogias.(...)
tenho andado com imenso trabalho.
tenho-te visitado menos.


beijo,

maatmaat7
(http://ardeoazul3.blogspot.com)
(mailto:maat7@sapo.pt)


De Anónimo a 14 de Março de 2005 às 14:56
Estou curiosa. Como será esse texto para não caber aqui? Manda-mo lá...rosa_p
(http://www.rosapurpura.blogs.sapo.pt)
(mailto:rosa_p@sapo.pt)


De Anónimo a 14 de Março de 2005 às 14:31
O que me parece é que nós, seres humanos, exacerbamos o cenceito de individualidade. A tal ponto que quase nos esquecemos de que não vivemos sozinhos.caterina
(http://www.caterina.blogs.sapo.pt)
(mailto:caterina_c@sapo.pt)


De Anónimo a 14 de Março de 2005 às 13:21
e não podem ser pequenos nadas o tudo simples do mundo todo?

Beijinho grandeSónia
(http://www.lbutterfly.blogs.sapo.pt)
(mailto:soniapires@iol.pt)


De Anónimo a 14 de Março de 2005 às 00:14
Maravilhoso texto que dentro do seu encanto é penoso e triste por ver o nada que existe no mundo inteiro. Um beijoamita
(http://brancoepreto.blogs.sapo.pt)
(mailto:amitaf324@hotmail.com)


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