blog filosófico, cultural e político
Sábado, 27 de Novembro de 2004
OS VERDADEIROS RESPONSÁVEIS DO SECULAR ATRASO-Os homens das universidades
Um velho amigo meu, meu professor, professor universitário respeitadíssimo, entende que não tenho razão, os professores universitários não são responsáveis pelo que se passa neste país mais do que qualquer comum cidadão.
Mas não tem razão.
Insisto na minha tese: os professores universitários são os principais responsáveis pelo secular atraso deste país.
Senão vejamos: Como funciona o ensino neste país? Como funciona a saúde neste país? Como funciona a justiça neste país? Como funciona a administração pública neste país?
Creio que ninguém, incluindo o meu ilustre amigo, dirá que funcionam bem.
E se funcionam mal, quem dirige, e sempre dirigiu, estas áreas vitais para o país senão os homens das universidades e aqueles que foram formados pelos homens das universidades?
Quem é o primeiro responsável pela incompetência dos formados senão os formadores, isto é, os homens das universidades?
Parece-me, na minha humilde opinião, que estas verdades são indesmentíveis. E gostaria que o meu ilustre amigo, no seu blog, ou nos seus execelentes artigos no PÚBLICO, deduzisse argumentos contra esta tese.
Como compreende, trata-se de uma questão que merece muito mais tratamento do que o (agora) triste traste que nos governa.
Lançado o argumento e lançado o desafio ao meu ilustre amigo - e aos visitantes deste blog - irei agora mostrar as causas da responsabilidade dos homens das universidades no nosso secular atraso.
1ª Causa- O círculo fechado em que funcionam as nossas universidades.
Os homens das universidades funcionam em círculo fechado, protegendo-se a si próprios e aos seus pares de qualquer ameaça vinda do exterior.
Pode o doutorado pelas melhores universidades estrangeiras tentar leccionar nas universidades portuguesas. Dificilmente o conseguirá, porque dificilmente lhe reconhecerão o doutoramento.
Isto porque quem vier ameaça o lugar e o "brilho" dos que já lá estão instalados, e estes o que mais receiam é a instabilidade que lhes causa essa ameaça.
Daí que dentro das universidades funcionem o amiguismo, o elogío mútuo, o clientelismo e a estagnação, como principais factores de defesa dos que ocupam os seus lugares.
Creio que se trata de uma verdade dificimente desmentível tantos são os casos em a realidade é assim - e tão poucos aqueles em que a excepção ocorre, para confirmar a regra.
O último caso de que tivémos conhecimento, foi o de um brasileiro, doutorado pelas mais prestigiadas universidades americanas, classificado no grau superior a nível mundial, um grau em que não possuímos qualquer classificado na área científica desse brasileiro, que para dar aulas numa das faculdades da Universidade do Porto teve de se sujeitar a ser pago ao nível de um simples assistente.
Outros inúmeros exemplos são por demais conhecidos, desde as áreas científicas às artísticas, nomeadamente escolas superiores de música, onde ocorrem casos escandalosos de preterição da competência pela incompetência.
O saber nas universidades portuguesas funciona essencialmente em círculo fechado, auto-regulado e auto-protegido.
É por isso, por exemplo, que um licenciado em Direito sai duma universidade sem nunca ter visto um processo, que um licenciado em letras sai duma universidade sem saber o que é um aluno e uma escola, que um licenciado em economia nunca teve contacto com uma empresa, que um licenciado nas áreas científico-tecnológicas nunca contactou com os lugares fora da universidade onde funcionam, inseridos na realidade produtiva, os conhecimentos das suas áreas.
Daí que os seus formados valham o que valem, tenham as competências que têm demonstrado na gestão dos sectores essenciais para o bom funcionamento do país.
Nos Estados Unidos da América existe a regra de que um recém-doutorado deve mudar de universidade para continuar a leccionar.
A ruptura do círculo fechado poderia começar por aqui, e por outro tipo de reconhecimento dos graus académicos que não dependesse só dos homens das faculdades para as quais um académico graduado no estrangeiro pretendesse entrar.
Como segunda medida, mas não menos essencial, está a ligação obrigatória das universidades à realidade económico social, instituindo a obrigatoriedade de, pelo menos no último ano de cada curso, o formando ter contacto com a realidade económica, social e cultural onde pretendesse inserir-se, ligando esse contacto à apredizagem universitária.
Creio que, sem estas medidas, nunca o país descolará do secular atraso.


publicado por henrique doria às 16:16
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8 comentários:
De Anónimo a 20 de Dezembro de 2004 às 16:27
Penso que se por um lado tem razão, por outro a descrição é pesada demais pois como de certeza que sabe, nestas questões não se deve generalizar. Ponto muito interessante sobre o qual eu não tinha ainda pensado, apesar de pensar que não são só os doutores o mal do Ensino. O mal vem de todo o sistema, desactualizado e inerte.ptimaz
(http://www.sensocomum.blogs.sapo.pt)
(mailto:ptimaz@sapo.pt)


De Anónimo a 16 de Dezembro de 2004 às 00:05
Deixei uma entrada no UniverCidade, debatendo esta tese.
T. A. F.!Luis Moutinho
(http://universitas.blogspot.com)
(mailto:lcmsilva@hotmail.com)


De Anónimo a 7 de Dezembro de 2004 às 23:25
http://www.tsf.pt/online/ciencia/interior.asp?id_artigo=TSF156888

c.q.d.Luis Moutinho
(http://universitas.blogspot.com)
(mailto:lcmsilva@hotmail.com)


De Anónimo a 30 de Novembro de 2004 às 07:26
A faculdade em que andei, infelizmente vem-te dar razão. Era um bando de velhos completamente desactualizados e sem qualquer ligação ou interesse pelas necessidades do mercado de trabalho ou pelas dificuldades que os alunos, uma vez formados e lançados "à sua sorte", teriam. Não havia qualquer liberdade de reclamação e apenas uma vez vi uma professora, supostamente mais "acessível", admitir que a faculdade não estava no grau de desenvolvimento desejável, mas para acrescentar logo de seguida: "Isto dizemos nós aqui, não vão espalhar isso lá para fora..." Porquê? Porque é que não se pode espalhar "lá para fora"? Não vão os outros descobrir o quão inúteis eram as pessoas que lá trabalhavam? Enfim... Beijossefaxavor
(http://tragameossais.blogspot.com)
(mailto:sefaxavor@sapo.pt)


De Anónimo a 29 de Novembro de 2004 às 16:23
Caro Henrique Dória,

não concordo com a tua visão da Universidade. Contudo, concedo com facilidade que ainda há muita Universidade assim.
Parece-me inclusivé que fazes alguma concessão às retóricas neo-liberais da empregabilidade e da produtividade.
Mas como és um homem inteligente e um poeta, pergunto-te apenas: quanto vale o conhecimento? como se mede? Qual é a medida da sensibilidade e da cultura?
É que, ao contrário do Direito e da Medicina, e até certo grau mesmo nesses, nem toda a Educação Superior é profissionalizante.

Chamo-te a atenção para o meu comentário preliminar no meu blogue em

http://universitas.blogspot.com/2004/11/os-verdadeiros-responsveis-do-secular.html

Em breve, lá retomarei o tema.

Luis Moutinho
(http://universitas.blogspot.com)
(mailto:lcmsilva@hotmail.com)


De Anónimo a 28 de Novembro de 2004 às 15:41
A crítica está correctíssima. Os professores universitários são o novo «clero respeitado» nesta sociedade laica
http://naturopatia.blogs.sapo.ptnotarikon
</a>
(mailto:notarikon@sapo.pt)


De Anónimo a 27 de Novembro de 2004 às 22:34

além dos excelentes poemas que nos ofereces é um privilégio comungar das tuas preocupações cívicas!
absolutamente de acordo: apesar de enchermos a boca com a "mítica" Europa, vivemos ainda o paradigma medieval de "aprendizes, companheiros e mestres"...! e não apenas no domínio do conhecimento...

DonBadalo
(http://oblogdalibelua.blogs.sapo.pt)
(mailto:DonBadalo@sapo.pt)


De cainha.pt@gmail.com a 13 de Janeiro de 2011 às 22:17
Permite-me discordar do raciocínio inicial. Por silogismo idêntico eu poderia dizer que a culpado do estado deste país é dos pais,os que dão a primeira formação moral, ética, social, de conhecimentos, etc. São eles que pegam na mais virgem matéria e a moldam.


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