blog filosófico, cultural e político
Terça-feira, 24 de Agosto de 2004
FAHRENEIT 9/11, de Michael Moore

Uma camarilha sinistra e sem princípios governa a América. E, governando a América, governa o mundo. É a mensagem que se retira do filme documentário de Michael Moore, Fahreneit 9/11, que obteve a Palma de Ouro do Festival de Cannes, neste ano de 2004.
Já escreveram alguns que se trata de um trabalho de simples ( simplista até) propaganda a favor do Partido Democrático. Pensamos que não. É que se GW Bush e a camarilha que o envolve na Casa Branca e, de um modo geral, nas teias do poder na América, é colocada na grande cloaca do mundo, o Partido Democrático também não sai lá muito bem da fotografia.
Vejam-se as cenas pungentes no Senado americano em que, perante a evidência de fraudes gravíssimas nas eleições no Estado da Florida, governado pelo irmão de G W Bush, os vários representantes locais dos eleitores que vieram ao Senado denunciar, por escrito, como obrigava a lei, essas fraudes, não conseguiram obter a assinatura de um único senador democrata, incluindo All Gore, imprescindível para que as fraudes fossem discutidas no Senado.
Por outro lado, a passividade do Partido Democrático perante situações tão graves como a saída, por avião, de vinte e cinco elementos da família Ben Laden sem serem interrogados pela polícia, quando se sabia que os atentados tinham sido levados a cabo por Ben Laden, e quando era estritamente proibido qualquer voo nos céus da América, depois dos ataques de 11 de Setembro. E a mesma passividade perante a evidência de que a administração Bush permitiu a Ben Laden um avanço de dois meses de modo a levar a cabo com absoluto sucesso a sua fuga, quando, se agisse com rapidez, poderia facilmente tê-lo apanhado - a passividade do Partido Democrático nessas circunstâncias demonstra a existência de um partido frouxo, acomodado, sem coragem para enfrentar as grandes e complexas questões que a América teve de enfrentar na sequência do 11 de Setembro.
Fahreneit 9/11 não deixa, porém, quaisquer dúvidas de que a administração Bush é o que há de mais currupto e mais podre na sociedade americana. E que o que guia G W Bush e a sua camarilha é o uivo do dinheiro, em particular do dinheiro que vem da Arábia Saudita e, em particular, da família Ben Laden.
Michael Moore demonstra no seu filme que, para se perceber o 11 de Setembro e todo o comportamento da administração Bush depois dessa data terrível para a América, teremos de ter em conta o seguinte:
A família real da Arábia Saudita e a família Ben Laden a esta estreitamente ligada detêm 7% ( sim, sete por cento!) de toda a economia americana.
Os gestores do essencial desses 7% são precisamente a família Bush e a gente que lhe é mais próxima no poder.
Daqui se depreende todo o comportamento dúplice de G W Bush, e a invasão do Iraque.
Por outro lado, Michael Moore dá-nos uma imagem muito fiel à realidade da personalidade de G W Bush. Dizia Santo Agostinho que o rosto é o espelho da alma. E Michael Moore passa grande parte do filme a mostrar-nos o rosto verdadeiro de G W Bush – verdadeiro porque anterior às maquilhagens e ao espectáculo devidamente encenado que dele nos dão as televisões.
Aquela repetição dos três minutos que Bush tem de esperar pelo ida para o ar da emissão televisiva, os seus esgares, os seus tiques, o vazio mental que se depreende do seu rosto, naqueles três minutos, são uma extraordinária imagem da personalidade daquele que é, neste momento, o senhor do mundo.
Depois, aquela longa espera de 7 ( sete!) minutos pela reacção de Bush à informação que lhe fora dada pelo seu staff da tragédia que o país acabava de sofrer com o ataque às torres gémeas, a filmagem implacável daquele rosto primeiro com ar de idiota, e, depois, com ar de canalha, aquele rosto que assim se apresentava nu e igual a si próprio, ao mundo, são dos momentos mais notáveis deste filme documentário, em que os personagens reais são actores, e a ficção é a própria realidade filmada.
E é nisso que Fahreneit 9/11 é absolutamente inatacável: o que nos mostra não é uma encenação, mas um conjunto de filmagens da própria pessoa de G W Bush, da sua família ( pai incluído) e da gente sinistra que com ele domina a actual administração americana. Gente com uma alma feia, como o é a verdadeira face da Secretária de Estado (Ministra dos Negócios Estrangeiros) Condolesa Rice, onde a ambição sem escrúpulos e o cinismo surgem estampados no seu rosto sem máscara.
Porque tudo na administração Bush é máscara e disfarce.As suas ameaças a Ben Laden escondem os negócios que tem com a família que, como o filme demonstra, não cortou relações com Ossama. O seu ataque ao Afeganistão não passa de uma fantochada, como fantoches são os gestores que Bush colocou à frente do Afeganistão, a começar pelo seu Presidente, cúmplice nos negócios da família Bush. O seu ataque ao Iraque não passa de outra fantochada, para desviar a atenção do povo americano da sua estrutural incapacidade para gerir o país ( como o foi para gerir as empresas em que se meteu antes de ser Presidente), da sede de dinheiro dele e da clique que o rodeia, da sua falta de vontade de capturar Ossama Ben Laden e o seu exército de fanáticos.
Sem ser propriamente um grande filme, Fahreneit 9/11 é um documentário de uma verdade cruel sobre os tempos de hoje .
Desde a fraude ostensiva que foi a eleição de Bush, à manifesta incapacidade e displicência para gerir o país no seus primeiros meses de Presidência, ao 11 de Setembro e ao comportamento de G W Bush perante a tragédia que atingiu a América ( e é aqui que Fahreneit 9/11 tem os seus melhores momentos), às ligações da família Bush à família real saudita e à família Ben Laden, à invasão do Iraque e à falsidade da sua motivação, e, finalmente, aos horrores da guerra.
Um filme /documento que é imprescindível ver.

HENRIQUE DÓRIA


publicado por henrique doria às 13:04
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3 comentários:
De Anónimo a 26 de Agosto de 2004 às 13:06
"sul", terminando hoje as suas viagens, deixam aqui um abraço agradecido pela simpática companhia em alguns percursos.
Dia bom. :-)*adesse
</a>
(mailto:adesse@sapo.pt)


De Anónimo a 25 de Agosto de 2004 às 14:15
E eu que ainda não o vi. Ando a ficar em pulgas... Depois dou-te a minha opinião :-) Beijoinconformada
(http://escrevoapenas.blogspot.com)
(mailto:inconformada@sapo.pt)


De Anónimo a 24 de Agosto de 2004 às 16:32
Já escrevi sobre o mesmo tema. Concordo com quase tudo o que apontas. Sem ser um grande filme, é e facto uma denúncia notável. Bjs


lique
(http://mulher50a60.weblog.com.pt)
(mailto:lique2@sapo.pt)


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