blog filosófico, cultural e político
Quarta-feira, 21 de Julho de 2004
A ESCOLHA DO DR. JORGE SAMPAIO
Hesitei muito antes de escrever umas linhas sobre a decisão do Dr. Jorge Sampaio de aceitar o Dr. Santana Lopes como Primeiro-ministro de Portugal.
Valeria essa decisão um trabalho de reflexão e escrita?
Ao terceiro dia decidi-me pelo sim, porque, pela negativa, se trata de uma história de proveito e exemplo.
A decisão do Dr. Jorge Sampaio faz-me lembrar a apreciação que um meu bom amigo fazia de um familiar, Coronel Inspector do Exército. Ao verificar as contas da gestão de qualquer Manutenção Militar, o dito Sr. Coronel exigia como condição essencial que tudo batesse certo até ao centavo: se assim sucedesse, mesmo que no meio das contas houvesse fraudes, vulgo, a maior roubalheira, tudo para ele estaria certo e perfeito.
Mas se houvesse a diferença de um tostão, o responsável pela Manutenção Militar em causa veria tudo o que fez virado de alto a baixo, e com possibilidades de ter um processo disciplinar por se ter enganado a somar ou a subtrair um centavo.
Assim agiu o Dr. Jorge Sampaio.

1ª questão:
O Dr. Santana Lopes não foi legitimado em eleições para o parlamento nem sequer num congresso partidário?
Mas isso não teve qualquer importância, porque o programa do PSD (agora PPD) reza que o seu líder, mesmo que não temporário, pode ser designado num pequeno conclave de dirigentes. Está cumprida a formalidade do programa, tudo está certo e perfeito para o Dr. Jorge Sampaio.
Não interessa que o líder definitivo tenha sido designado pelo antecessor e confirmado por um punhado de barões, à margem das elementares regras democráticas. Mais: não interessa que se houvesse um congresso para eleição do Presidente do PSD, nunca o Dr. Santana Lopes ganharia contra, por exemplo, o Professor Marcelo Rebelo de Sousa.

2ª questão:
O governo terá de se apresentar à Assembleia da República com um novo programa. Esse programa não foi sufragado pelos portugueses. Mas tal não tem importância porque os líderes do PSD (PPD)e do CDS (PP) – note-se a metamorfose dos nomes - garantiram ao Dr. Jorge Sampaio que o novo programa seria cópia fiel do anterior.
Não interessa que o Dr. Jorge Sampaio bem saiba que o Dr. Santana Lopes e o Dr. Paulo Portas usam a mentira como modo de estar na política, e que se há políticos em quem não se pode confiar é neles. E que, para eles, o programa de governo é um simples pedaço de papel.
Garantiu o Dr. Jorge Sampaio que se não cumprissem a palavra dada lá estaria para os fiscalizar.
Pior a emenda que o soneto.
Bem sabemos nós que o controle do governo pelo Presidente da República é pouco mais do que formal, porque o Presidente não pode, nem deve, governar.
E bem sabemos ainda que, durante um ano dos dois que pode governar, o novo governo está à margem de qualquer controle, já que não pode ser demitido nos últimos seis meses do mandato do actual Presidente da República, nem nos primeiros seis meses de mandato da próxima Assembleia da República, por imposição constitucional.
Mas estas razões de substância não interessaram ao Dr. Jorge Sampaio, porque a formalidade estava cumprida.

3ª questão
O DR. Jorge Sampaio é o Presidente de todos os portugueses.
Como tal teria de mostrar imparcialidade face aos seus eleitores e, sobretudo, aos seus amigos.
E tal imparcialidade só poderia mostrar-se numa decisão tomada contra as posições defendidas pelos seus eleitores e amigos, único caso em que os seus opositores a veriam como isenta.
Isto é, numa decisão que é parcial a favor dos que não o elegeram e sempre foram seus inimigos.
Mais uma vez o Dr. Jorge Sampaio escolheu a forma em vez da substância, preferiu agir conforme pensavam os seus opositores, a agir conforme ditaria a sua consciência, com medo de ser acusado de parcialidade.

4ª questão:
Finalmente, e questão essencial, o Dr. Jorge Sampaio sabia que a tomar a decisão que tomou estaria a escolher para Primeiro-ministro o Dr. Santana Lopes, isto é, um jogador, um político intelectualmente medíocre, sem palavra, sem seriedade, sem rigor.
Um político que irá apostar tudo no controle da comunicação social que é tuo menos isenta, que tão controlada é pelos interesses da direita, pelo campo dos negócios e das negociatas, e não pelos princípios constitucionais que o Dr. Jorge Sampaio jurou defender: a liberdade, a igualdade e a fraternidade.
Bem sabia o Dr. Jorge Sampaio, ao escolher para Primeiro-ministro de Portugal o Dr. Santana Lopes, que estaria a escolher um jovem Berlusconi, e que este é um personagem só aceitável numa Itália que aceitou um Mussolini e aceita conviver com a Mafia, um dirigente que faz da democracia uma simples formalidade, fazendo leis em benefício próprio, que o isentam de responder perante a justiça como responde qualquer cidadão.
Percebe-se a alegria desse títere que é Alberto João Jardim.
Não poderia ignorar o Dr. Jorge Sampaio que esta era a questão essencial, e que era sobre esta questão essencial que teria de decidir.
Mas o Dr. Jorge Sampaio preferiu que se cumprissem apenas as formalidades.
Como o tal Coronel Inspector apenas exigiu que as contas estivessem certas até ao tostão, e aprovou-as, mesmo percebendo que a Manutenção Militar estava a ser roubada.

HENRIQUE PRIOR



publicado por henrique doria às 21:36
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