blog filosófico, cultural e político
Sábado, 10 de Abril de 2004
A ÚLTIMA CEIA


Mesmo depois de morto o avô ela continuava a viver com ele como se a catástrofe da morte não tivesse acontecido. Fazia-lhe a comida, falava-lhe, falava do seu trabalho às outras pessoas. E nós colaborávamos para que permanecesse essa ilusão, não só porque evitávamos assim o seu sofrimento, mas porque também para nós era difícil acreditar que ele tinha partido para sempre.
Para todos os que visitavam a avó, erguíamos um muro de protecção pedindo-lhes que se comportassem com ela como se o marido estivesse presente. Todos lhe perguntavam como ia o tio Aurélio, para onde tinha ido trabalhar, como estavam as vinhas que ele cultivava ou o milho que semeava. Despediam-se deixando cumprimentos ao tio Aurélio.
A avó nunca saía à rua depois da morte do avô, e nós diziamos-lhe sempre que fazia bem em não sair, porque fora de casa já nada havia de novo.
Mas, um dia, fugiu-lhe a galinha pedrês, e a avó foi atrás dela para a trazer para casa. Encontrou-se então com a tia Maria Pedra que a vinha visitar. Na aldeia todos sabiam que a avó vivia na ilusão de que não tinha perdido o marido. E todos colaboravam nessa ilusão. Mas a boa tia Maria Pedra que também ficou afastada da família mais próxima depois da morte do marido, fora passar uma temporada na América com os filhos que lá estavam emigrados. Porém a temporada tornou-se anos. Só quando quando não pôde resistir mais às saudades da terra é que voltou. E só então soube da morte do avô.
O marido dela tinha trabalhado para o avô durante doze anos de casados. Entre eles e os avós geraram-se com isso laços de amizade. Quando o marido quis emigrar para França, foi o avô quem lhe emprestou dinheiro para pagar ao engajador – e não lhe quis juros durante os vários anos em que a vida em França correu mal. Assim, à amizade sucedeu-se a gratidão. Mais tarde, quando uma filha lhe adoeceu com uma doença maligna, foi o avô quem se deslocou a Coimbra para dar sangue à menina na frustrada esperança de a salvar. Perdida essa esperança, algumas vezes o avô me levou a casa dela para ver, num quarto minúsculo e escuro, a criança adormecida e a mãe resignada a explicar-nos que a filha já pouco sofria, pois aquela droga que estava num pequeno frasco negro sobre a mesa de cabeceira mantinha-a quase sempre adormecida, e preparando-a já para o sono eterno - ou para a felicidade eterna, quem sabe.
Pode, assim, imaginar-se o afecto que ligava a tia Maria Pedra ao avô. Por isso, quando lhe falaram na sua morte, desfaleceu, como se uma das melhores partes de si própria tivesse também morrido. Ninguém se lembrou depois de lhe falar na ilusão em que vivia a avó, e como todos preservavam essa ilusão.
Ao ver a avó na rua dirigiu-se para ela em grande pranto: “Tia Ana perdeu o seu homem, perdeu o homem mais bondoso do mundo”. E abraçou-se à avó apertando com força o seu corpo pequeno, como se lhe quisesse dar a sua própria energia para que assim a avó pudesse enfrentar melhor o sofrimento.
A avó olhou-a então com um olhar estranho e distante. Partira-se naquele momento a corda que a ligava à vida.
Abraçou suavemente, resignada e alheia, a Maria Pedra. Não lhe falou sequer. Voltou para casa esquecida da galinha pedrês. A tia Maria Pedra compreendeu aquele silêncio e não insistiu na sua presença ficando a ver a avó dirigir-se ao portão de entrada na casa, sem coragem para lá regressar.
A partir de então, a avó nunca mais voltou a falar com o avô, a fazer-lhe a comida, a chamá-lo ao longe para vir jantar.
Quando, no fim de semana, vim à aldeia e fui visitá-la, perguntei-lhe pelo avô, mas ela abraçou-me com um olhar vazio e distante, deixando cair duas lágrimas sem me responder.
Na semana seguinte voltei à aldeia. Encontrei a avó a depenar uma galinha, algo que já não fazia há muito. Arrancava as penas com o mesmo ar alheado e distante com que eu a encontrara no fim de semana anterior. Pedi-lhe para não continuar pois queria que ela fosse almoçar a casa dos meus pais.
Mas ela que, após a morte do marido, nunca mais abandonara a sua casa, recusou dizendo-me – Olha filho, hoje resolvi fazer uma canja para mim, já matei a galinha e vou arranjá-la para a cozinhar. Vai passear pelo quintal enquanto eu faço o almoço e comes aqui comigo.
Aceitei aquela ordem. Fui a ver laranjeiras, macieiras, figueiras, pereiras, diospireiros, tangerineiras, ameixieiras – árvores que outrora o avô tratava como se fossem suas filhas e, agora, ali estavam abandonadas. Também elas tinham perdido a alegria e a força de viver. Fixei o olhar em cada canto do quintal como se esperasse a cada momento que o avô ali pudesse surgir a trabalhar, que era o que sempre fizera ele que haveria de morrer no dia do trabalhador.
Quando voltei já tinha o almoço pronto e a mesa posta. Sentei-me bem junto dela a comer. Mas quase não falámos durante a refeição. Ela abraçava-me a cada instante, e eu beijava-a e acariciava os seus cabelos curtos e frágeis.
Quando acabámos de almoçar, depois de arrumar a sala e a cozinha – recusara sempre contratar uma empregada para a ajudar na lida caseira e lhe fazer companhia – quis que ela fosse passear comigo. Recusou com um vago já estiveste comigo, agora vai para junto dos teus pais.
À minha saída abraçou-me prolongadamente e com força, e beijou-me a testa e acariciou-me a cabeça como me fazia quando eu era criança. Disse-lhe que viria despedir-me dela antes de regressar a Coimbra. Pediu-me para não voltar lá a casa, pois sentia-se cansada e queria deitar-se cedo. Deixei-a, então, resignado.
No dia seguinte a minha irmã telefonou-me a chorar dizendo-me que me ia dar uma notícia muito dolorosa. Percebi logo que a avó tinha morrido. Quando cheguei à aldeia e me dirigi a casa encontrei a tia Maria Pedra abraçada ao caixão. Já deixara de chorar porque a fonte das lágrimas se lhe tinha secado.
Voltou-se para mim a implorar um perdão que não havia motivo para lhe dar – Oh! Adriano, eu é que fui a culpada da morte dela. Se eu não lhe tivesse lembrado que o teu avô tinha morrido ela ainda hoje vivia. Apercebi-me que ela tinha escutado a aproximação da morte na semana passada, quando me deu dinheiro para eu encomendar para o marido e para ela uma missa para o próximo sábado. Ontem à noite voltou a pôr a mesa para ela e para o teu avô. Pôs nos pratos a canja de que ambos tanto gostavam. Sentou-se e ficou a olhar fixamente o prato do marido. Pediu-me para a deixar só.
Esta manhã vim dar com ela morta, e a comida intacta no prato dela e no que ela tinha, pela última vez, posto para o teu avô.

HENRIQUE DÓRIA


publicado por henrique doria às 12:46
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1 comentário:
De Melissa Yedda a 17 de Agosto de 2011 às 18:37
Henrique, arrancaste-me lágrimas sentidas com este teu relato... Fazia tempo que não lia algo com tanto sentimento!

Um abraço


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