blog filosófico, cultural e político
Terça-feira, 6 de Abril de 2004
EM MEMÓRIA E LOUVOR DE AGOSTINHO DA SILVA

“ Gostaria muito que o povo português se especializasse no imprevisível.”
AGOSTINHO DA SILVA
Fez no passado dia 3 de Abril dez anos que faleceu AGOSTINHO DA SILVA.
Nascido no Porto, em 1906, AGOSTINHO DA SILVA foi uma das figuras cimeiras do pensamento e da cultura portugueses do século XX, com ele ombreando apenas António Sérgio e Jaime Cortesão. Nascido no Porto, infelizmente esta cidade tem-no votado ao esquecimento, não tendo havido uma única manifestação em sua memória e louvor.
Cidadão de Portugal e cidadão do Mundo, impedido de ensinar em Portugal pelo salazarismo, em vez de sofrer essa injustiça como uma derrota transformou-a numa oportunidade, dirigindo-se para o Brasil onde foi acolhido, fundou universidades, espalhou o seu pensamento e a sua acção, únicos na história depois do Padre António Vieira, ensinando e criando desde o Brasil ao Japão, passando por África, pensando sempre em português, olhando sempre para Portugal.
Sem nunca deixar de apreender os sinais do mundo, através do seu contacto com pensadores os mais diversos, com as mais diversas religiões, com as mais diversas culturas e costumes, nunca deixou de sonhar para Portugal uma missão no mundo, um destino histórico assumido, fundando nas raízes do seu passado sem as “bactérias” políticas que levaram à ruína de Portugal (sendo uma delas “ a mania do homem mandar nos outros homens”, e outra a questão da educação voltada apenas para o aparelho produtivo), fundando aí a construção da HISTÓRIA DO FUTURO.
Será hoje realista, ou possível sequer, falar em “missão de Portugal”? Somos dos que acreditam que sim, embora com algumas diferenças em relação a Vieira, Pessoa e Agostinho da Silva.
Bem compreendeu Camões n´Os Lusíadas que, olhando o mundo como um todo, Portugal se encontra na cabeça da Europa. Como escreveu o genial poeta, é aqui que “a terra acaba e o mar começa”, é aqui que acaba a Europa e começam os outros mundos que Portugal deu ao Mundo, ou, em sentido inverso, que acaba o Mundo e começa a Europa.
De modo diferente de Agostinho da Silva não pensamos que a Europa se encontre esgotada. Com ele acreditamos que a Europa se cansou, se perdeu mesmo nos caminhos do Ter. Mas a Europa é portadora também, como nenhum outro continente, como nenhuma outra civilização, dos caminhos do Ser. E são os caminhos do Ser que é importante que a Europa recupere, já que nos caminhos do Ter, nos caminhos da riqueza, do dinheiro, do poder, já há muito que deixou de estar à frente do mundo.
Se a Europa souber recuperar o seu passado único no mundo, um passado que nos legou Homero, Sócrates, Platão, Aristóteles, Cristo, Boécio, Eckart, Dante, Miguel Ângelo, Leonardo, Camões, Galileu, Rousseau, Espinosa, Kant, Bach, Mozart, Newton, Hegel, Schubert, Kierkgard, Marx, Darwin, Nietzche, Freud, Fleming, Einstein, Max Planck, Proust, Picasso, Popper, para falarmos apenas de alguns daqueles que consideramos os mais importantes, o seu futuro no mundo só poderá continuar a ser brilhante.
Se a Europa compreender que o Ter não deve ser um objectivo em si mas apenas o caminho para o Ser, a Europa não poderá deixar de ser um foral do futuro do homem, que deverá ser, necessariamente, o Homem.
Só se esgotam as civilizações que perdem as suas raízes, e assentando o futuro nas suas raízes a Europa não se esgotará.
De todos os europeus, foram os portugueses, sem dúvida, aqueles que deram mais mundos ao mundo. Foram os portugueses que, como disso AGOSTINHO DA SILVA, “descobriram que o mundo é um arquipélago.”Devemos compreender e aceitar com orgulho a herança que deixámos no Brasil, em África, na Índia e até Timor. Não devemos deixar que essa herança se perca, mas sim que ela constitua um desafio para a construção do nosso futuro, e uma contribuição essencial para a construção da Europa do futuro fundada no Ser, já que as nações de língua inglesa, a começar pela imperial América, fazem do Ter o seu grande desígnio.
AGOSTINHO DA SILVA, como ele disse de si próprio formado “em liberdade”, compreendeu que só o reinado do espírito, o reinado a que ele chamou, na sequência do franciscanismo de Joaquim de Flora e do Padre António Vieira, o reinado do Espírito Santo, poderá fazer do Homem o futuro do homem, um futuro em que a humanidade se reveja na sua unidade e na sua diversidade, ambas assentando na santa liberdade.


publicado por henrique doria às 13:07
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