blog filosófico, cultural e político
Domingo, 28 de Março de 2004
Paraíso Perdido
PARAÍSO PERDIDO

Eu sabia que, à noite, me esperariam as palmadas e o cinto por chegar a casa já com as estrelas cadentes - há quantos anos não vejo estrelas cadentes neste céu sem fundo da cidade ! - e as calças rotas. Mas o meu pai podia cortar-me em dois que uma das partes iria sempre nadar na Preza da Ribeira e outra subir aos pinheiros para ver as bolas de penugem dos pequenos milhafres.
O nome de Natalino era, no meu companheiro de vagabundagem, um absurdo porque me arrastava para o risco permanente da morte. O meu pai sabia-o - um primo tinha já morrido por cair do alto de um pinheiro. Mas, com cinco e seis anos de idade, eu desconhecia então o que era a morte, e o único medo que sentia era do Tigo, o cão do Tio Fernando que, silenciosamente e com a velocidade de um raio, me queria levar um pedaço da perna.
Por isso, em vez de me cortar em dois, o meu pai decidiu meter-me num colégio interno.
Foi assim que deixei a Preza da Ribeira e comecei a embrenhar-me nos afluentes do Douro; deixei de subir aos velhos pinheiros onde os pica-paus faziam ninho para passar a conhecer onde começava e terminava o ramal de Cetil; e deixei para sempre de olhar os pequenos milhafres para ficar a saber que faziam parte de Portugal os encraves de Dadrá e Nagar-Aveli, na Índia, e Ocussi-Ambeno em Timor.
Da minha aldeia onde eu era imperador e os campos o meu império passei para o colégio onde era apenas o número vinte e um na turma, e o vinte e quatro na camarata.
E perdi, perdi para sempre, o Natalino. Passei a não lhe falar - e ele retribuia a minha distância. Quando entrei para o colégio outros amigos surgiram com nomes diferentes, com sons mais atraentes, mais altos: Orlando, Ricardo, Lauro.
Do redil do colégio de província mudei depois para o labirinto da cidade, e do liceu para a universidade. Tirei um curso onde a sabedoria da terra parece ter-se perdido na floresta do saber do homem, isto é, do nada.
O Natalino permaneceu na aldeia. Foi crescendo, namorou, casou, teve filhos, mas foi vivendo sempre entre o canto das águas dos ribeiros e as lágrimas dos pinheiros que, em vez de subir, passou a resinar. Afinal ganhava a vida retirando o sangue da terra.
Eu via-o apenas nos dias de Páscoa em que percorria as casas mais íntimas da aldeia. Mas não tinha coragem para lhe falar. Traíra-o. Deixara de partilhar com ele a água, a terra e o céu. E a certeza da minha traição impedia-me de lhe falar.
Houve uma Páscoa, porém, em que não o vi. Perguntei ao Carlos o que lhe sucedera. Disse-me que o Natalino tinha enlouquecido. Vivia bem do negócio da resina mas, de repente, esse mundo a que eu pertencia agora entrou-lhe pela casa dentro para o destruir. A resina que tinha comprado aos lavradores no ano anterior tinha baixado de preço para menos de um quinto. Como sempre sucedia, ele pagara-a adiantadamente, pagara também ao pessoal para desencarrascar os pinheiros, colocar as bicas e os vasos. Comprara também bicas, vasos e ácido para vários anos. E, agora, o novo preço da resina não dava sequer para pagar a pessoal que a recolhesse. Endividado em alguns milhares de contos, sem poder praticar a única profissão que até ali conhecera e que fora também a de seu pai, o Natalino enlouqueceu porque começara a entrar no país a resina vinda da distante China.
Nesse domingo, a meio da tarde, a celebração da Páscoa para mim acabou. Sentia-me culpado. Culpado por ter abandonado o Natalino no mundo que ele comigo partilhara, culpado por ter entrado nesse outro mundo de que fazia parte a China, ou outro país mais pobre e mais distante ainda que o tinha destruído.
Queria falar-lhe, dizer-lhe que ele continua, continuará a fazer parte do que de melhor há em mim, do meu paraíso perdido. Mas não posso, porque deixei já de poder falar com a minha infância.


publicado por henrique doria às 00:58
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