blog filosófico, cultural e político
Quarta-feira, 24 de Março de 2004
NEGOCIAR COM O INIMIGO
O terrorismo é um crime cobarde e repugnante. Cobarde porque se esconde, porque é traiçoeiro e sem regras. Repugnante porque, frequentemente, as suas vítimas são os menos culpados dos conflitos que o terrorismo pressupõe, frequentemente crianças e idosos, os mais frágeis elos da sociedade.

Porém o terrorismo não vem apenas de grupos secretos do género da ETA ou Al-Quaeda, mas é também promovido pelos estados, à frente dos quais estão Israel e os Estados Unidos da América.

O caso de Israel é um caso particular em que o terrorismo contra um Estado, após a tomada de poder pelos terroristas, se transformou em terrorismo de Estado: Menahem Begin, um perigoso terrorista contra o domínio inglês na Palestina, que colocou bombas em hotéis, que matou centenas de inocentes, assumiu o poder como Primeiro-Ministro de Israel, e aí continuou o seu terrorismo contra os palestinianos, matando cegamente milhares de inocentes nos campos de refugiados da Palestina e do Líbano.

Claro que para ele e os seus sequazes, incluindo o seu herdeiro, o criminoso de guerra e actual Primeiro-Ministro de Israel Ariel Sharon, o seu terrorismo, quer quando era contra o Estado, quer quando era de Estado, era sempre legítimo, sendo obviamente ilegítimo o terrorismo palestiniano.

Quando Begin era um terrorista que pretendia ocupar o poder de Estado, construindo o Estado de Israel, para ele e os seus sequazes haveria todas as razões para que o poder dialogasse com ele e com o seu grupo de terroristas.

Agora que os herdeiros estão no poder, para eles e os que os apoiam não pode haver diálogo com os terroristas que, na realidade, são apenas aqueles que ainda não conquistaram o poder, porque com os terroristas detentors do poder, todo o diálogo é possível e legítimo. É isto que dizem todos os senhores do poder, desde Sharon, a Bush, a Blair e Durão Barroso.

O caso de Blair é interessante: a sua memória deve ser curtíssima, porque ainda recentemente negociou, com sucesso, com os terroristas do IRA.
E negociou bem, porque compreendeu uma questão essencial que agora parece recusar-se a compreender: o terrorismo do IRA tinha uma causa, e para se acabar com o terrorismo tinha de se acabar com a sua causa.

É assim com o terrorismo palestiniano e da Al-Quaeda ( e com o terrorismo da ETA). Estes terrorismos têm uma causa. E enquanto não houver solução para essa causa o terrorismo persistirá. Blair compreendeu isso quanto ao IRA. Se ele e os seus amigos o não comprenderem quanto ao terrorismo palestiniano ou da Al-Quaeda, o que estão a fazer é prolongar a carnificina.

Quanto ao caso palestiniano ele é dramático, porque mesmo sendo frontalmente contra ele, compreendemos o desespero dos que se viram expulsos das suas terras, os seus bens roubados, os seus familiares mortos pelo terrorismo israelita nas duas formas de que se revestiu historicamente.

O caso da Al-Quaeda resulta das humilhações sucessivamente sofridas pelo mundo muçulmano, pelo menos depois que a esquadra conjunta de espanhóis, portugueses, venezianos, genovezes e outros comandados por D. João de Áustria massacrou a esquadra turca em Lepanto ( na Grécia) no ano de 1571. Daí para a frente assistiu-se a um verdadeiro espezinhar da cultura e da civilização muçulmanas, de que um dos exemplos é o horrível pavilhão de Carlos V, agressivamente triunfante no meio desse tesouro da arte e da civilização que é o Alhambra, de Granada.

É óbvio que a persistência secular da humilhação leva a um radicalismo no campo dos humilhados, e ao terrorismo que nenhum poder de estado poderá aniquilar, porque para cada terrorista que se sacrifica haverá sempre mais cem dispostos a sacrificarem-se.
Quem não compreender isto nunca compreenderá o essencial.

Por isso nos curvamos perante a sabedoria e a coragem de Mário Soares ao propor o diálogo com o terrorismo palestiniano e muçulmano em geral. Fê-lo para bem da humanidade, para que não continue o massacre de inocentes e não inocentes.
Quem não compreender nunca compreenderá o essencial.


publicado por henrique doria às 23:53
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