blog filosófico, cultural e político
Domingo, 22 de Abril de 2007
O HOMEM ETERNO

Era raríssimo vê-lo nos dias frios de Inverno. Sabia, no entanto - era a minha mulher quem o dizia, pois eu raramente por lá passava - que, logo de manhã, estava à entrada da igreja da Rua Guerra Junqueiro. Aí o frio era menor e, por isso, embora as esmolas fossem raras - ou porque já era conhecido das beatas e o mal disfarçado ar ainda jovem e provocador não lhes inspirava a piedade que gostavam de sentir para dar esmolas, ou porque a concorrência de outros pedintes mais convincentes da sua desgraça era grande - preferia pedir nesse local.
Mas, a partir de Março, quando o sol aquecia, todas as manhãs lá estava ele no cruzamento da Rua Belos Ares com a Avenida da Boavista, mesmo junto ao bingo e em frente do World Trade Center e do Sheraton Hotel.
Os automobilistas chegavam a estar dois minutos parados frente aos semáforos, à espera que caísse o sinal verde, e ele tinha tempo para os abordar. O facto de se encontrarem dentro de automóveis a serem olhados pelos que seguiam atrás na bicha tornava-os mais vulneráveis as investidas do pedinte.
Não tinha o ar desgraçado e infeliz dos outros pedintes. Aproximava-se com desenvoltura dos automóveis e, se bem que fosse calvo e tivesse barba grisalha, facilmente se notava que nele a calvície era exagerada porque penteava o cabelo para trás, e o olhar vivo não deixava que a barba fizesse acreditar que tinha mais de cinquenta anos. Quem olhasse, poderia dizer como a minha mulher, que o detestava: este indivíduo tem bom corpo e idade para trabalhar.
Mas não. Preferia pedir - mesmo que soubesse que o esmolar era para ele uma impostura que, até pelas roupas ainda em estado razoável que trazia, aqueles a quem estendia a mão não deixavam de perceber.
Assim, simultaneamente pedinte e trocista, lá se ia aproximando de um vidro que se fechava, de uma mão que se estendia com uma moeda de cem escudos ou de um rosto que fingia que não o via nem ouvia, caminhando sempre sobre o muro da sua condição de vagabundo, vigarista e pedinte.
Naquela manhã de Maio branca e quente, talvez ele se tivesse levantado particularmente feliz por estar vivo. E isso fazia com que se lançasse ao trabalho com maior ardor. Caminhava gingão e matreiro de carro para carro, estendia a mão, pedia "por favor" uma esmola - punha um ar sério se lha davam, sorria se nada recebia. Outras vezes pedia só um cigarro. Mas quando viu aquela mulher jovem e loura chegar no Volvo vermelho e aerodinâmico, com o braço apoiado na janela, aproximar-se devagar do último automóvel da bicha, até parar, ele saltou dois automóveis que o separavam dela e encostou-se, sorridente, estendendo o braço, enfiando-o dentro do Volvo, quase tocando no rosto da mulher que o olhou com raiva e desprezo e, aproveitando a oportunidade de o semáforo ter passado do vermelho para o verde, lhe cuspiu na mão, guinou subitamente da esquerda para a direita, acelerou e passou o semáforo a toda a velocidade.
E ele ficou ali, perdido no asfalto, a olhar para a mão, a tentar perceber o que se passara, a tentar ver o Volvo que já ia longe e talvez ele nunca mais voltasse a encontrar.
Sentiu então uma onda enorme e negra invadir as casas, as ruas, as praças, envolvê-lo num turbilhão e arrastá-lo ate ao fundo do mar.
Eu, que assisti a tudo isto no passeio, caminhei em direcção a um tapume que protegia os peões das obras de um banco próximo. No tapume estavam colados cartazes impressos em azul, negro e dourado, onde um olho solar lançava um triângulo de luz sobre duas serpentes entrelaçadas e, em grandes letras de ouro, sobre o fundo negro, estava escrito: O HOMEM ETERNO.

HENRIQUE DÓRIA-Viagem Para Uma Nebulosa



publicado por henrique doria às 23:48
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1 comentário:
De zazie a 24 de Abril de 2007 às 01:56
Está muito bom e é muito forte essa reviravolta final.
............

Tenho histórias curiosas com pedintes. Uma delas diz respeito a um grupo que costumava abancar no início da minha rua. Uma vez, à hora do almoço, estavam todos alegres a beberem vinho e um deles põe-se a citar :”Só sei que nada sei!” sabem quem disse? Foi Sócrates, uma grande filósofo grego que filosofava na rua, assim como a malta.

Ehehe

Outra, a mais gira, aconteceu em Oxford. Havia por lá uma série de pedintes com cães porque o governo paga-lhes uma qualquer pensão se cuidarem de animais abandonados. Geralmente estavam com os bichos aos pés, enquanto liam qualquer livro e pediam dinheiro. Muitos dos sem-abrigo de lá, até foram estudantes que caíram na desgraça. O mais engraçado costumava estar sozinho, junto a um cemitério de passagem, que ligava a Av central a uma universidade. Já era um cinquentão bem entrado, forte e ficava deitado a ler o Crime e Castigo do Dostoievski enquanto tinha aos pés um cãozinho de brinquedo, com a patinha levantada na direcção do pratinho das moedas .Nem levantava os olhos quando as pessoas passavam. Deixava-se estar a ler e o cãozinho de borracha que fizesse o serviço. Nunca mais me vou esquecer deste personagem


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