blog filosófico, cultural e político
Sexta-feira, 9 de Novembro de 2007
VIAGEM AO PAÍS DOS CÁTAROS

                                           DO PORTO A BURGOS

           

Viajar de Portugal para Espanha é tarefa fácil nos tempos de hoje. Recordo agora uma viagem feita nos meus quinze anos em que demorei um dia a chegar de Coimbra a Compostela. Se houve algo em que Portugal se transformou totalmente nos últimos trinta anos foi nas vias de comunicação. Sem dúvida que, neste campo, a chuva de dinheiro que nos caiu da União Europeia deu frutos. Bons frutos mesmo.

A minha viagem ao País dos Cátaros iria começar por Pau. Em Pau, cidade que foi já capital de Navarra, começa-se a sentir o pulsar do Languedoc. Mas, antes de alcançar Pau, eu quis recordar essa viagem feliz dos meus quinze anos, através de Espanha e do sul de França, e rememorar aquele que fora para mim o lugar marcante dessa viagem: S. Sebastian.

No meio da viagem, porém iria parar em Burgos, cidade que atravessara já algumas vezes, mas sempre sem poder admirar aquela que é uma das mais belas catedrais do Mundo. Seria agora que a peregrinação a esse lugar de imensa beleza iria ser feita.

Do Porto à fronteira de Chaves não demoramos mais do que hora e meia, sem forçar a velocidade - metade do tempo que se gastava há trinta anos. Faço uma paragem antes de Espanha para saborear, por muitos dias, o bom café português. Do outro lado da portuguesa Vila Verde da Raia – que lindo nome! – está a aldeia espanhola de Feces de Abajo,  sobre a qual ainda não compreendi porque não lhe foi mudado o nome, como em Portugal se fez de Porcalhota para Amadora.

Entre Portugal e Espanha, a não ser nas estradas, agora piores em Espanha, não se nota qualquer diferença. Os campos, as casas, as pessoas são iguais de um lado e de outro da fronteira que o Tâmega une, provando que não faz sentido a invocação da diferença geográfica para justificar a independência de Portugal.

Chegamos junto de Verin, por estrada, dirigindo-nos depois a Burgos por auto-estrada. Com uma paragem para descanso e abastecimento de combustível –e mais uma vez notamos que Portugal leva a palma a Espanha no que toca à rede de auto-estradas, pois a estações de serviço em Portugal são francamente melhores que em Espanha – cerca das onze horas estávamos em Burgos. Não foi difícil encontrar estacionamento próximo da catedral. E se não fossem alguns jovens com o rosto marcado pela desgraça da droga com que nos deparámos junto ao parque de estacionamento, diríamos que aquele gente de Burgos é uma gente feliz. Junto ao rio próximo da catedral decorria um festival do linho. Raparigas e rapazes, todos belíssimos, cantavam, dançavam e tocavam como se aquela fosse a terra da felicidade.

Bom encontro com a beleza despreocupada antes do encontro com a beleza sábia da catedral.

Hoje património da Humanidade, a catedral de Burgos é uma construção que acumula cinco séculos de História. Iniciada em 1221 sob o patrocínio de Fernando III, de Leão e Castela, o Santo, e do bispo D. Maurício, foi concluída apenas no século XVIII, com a construção da Capela das Relíquias e de Santa Tecla, e da Sacristia Maior. Entre tantos séculos e tão diversos estilos os seus obreiros foram conseguindo aquele equilíbrio estético tão difícil de alcançar.

De “incomparável” a classificou o papa Leão XIII, e de “assombro das nações” o poeta J. Zorrilla. Nela não sabemos o que admirar mais: se a floresta de pedra das sua torres se a beleza serena da sua fachada. Se a grandiosidade luminosa da nave central, se a decoração em claro/escuro das capelas laterais. Se a quase austeridade da capela de Cristo se a decoração vertiginosa da Capela de Santa Tecla, obra colectiva do ano de 1736. Se os grandiosos túmulos de reis e bispos, do Cid e de D. Ximena, se os majestosos e profusamente decorados cadeirões do capítulo, em madeira de nogueira, ou, até, a carroça de prata que todos os anos sai para a procissão do Corpus Cristi. Talvez eu retenha, para mim próprio, o Retábulo Maior da Capela da Conceição e Santa Ana, obra de mestre Gil de Siloe em estilo gótico flamejante, autor de muitos outros trabalhos na catedral.

Depois de visitarmos o edifício principal, quase nos falta a respiração para visitarmos os claustros e o museu cuja riqueza e variedade de estilos e peças merece também uma visita atenta.

Parafraseando Camões, mais vale vê-la que contá-la, porque, por melhor que se descreva, só perante a visão de tanta beleza a poderemos compreender.

Mas antes de partir para S. Sebastian, impunha-se também uma visita à Cartuxa de Miraflores,  para aí admirar mais uma fabulosa obra de  mestre Gil de Siloe, os túmulos de João II de Castela e Isabel de Portugal.

E, mais uma vez, o espanto perante tanta beleza. Não poderia ter começado melhor a viagem ao País dos Cátaros.



publicado por henrique doria às 23:04
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2 comentários:
De cassiopeia a 9 de Novembro de 2007 às 23:24
Caminho tão meu conhecido, ou não tivesse eu vivido tantos anos em Chaves... Foi bom revivê-lo, contado assim...
Beijo


De maria475@sapo.pt a 9 de Novembro de 2007 às 23:28
O comentário anterior é meu, mas enganei-me no remetente... Sorry


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