blog filosófico, cultural e político
Domingo, 9 de Dezembro de 2007
RESPOSTA A UM CALUNIADOR II

 OS ANTECEDENTES DA CRÍTICA

1. É sabido que o ódio de estimação de VPV a MST, sempre mais ou menos disfarçado, vem de longa data. Vem da data em que VPV, convicto  de que teve o papel de salvador da cultura portuguesa enquanto foi Secretário de Estado, pediu a MST para escrever nos jornais um artigo laudatório à passagem daquele pela Secretaria de Estado da Cultura e MST se recusou ao papel.

Não vem ao caso analisar a medíocre prestação de VPV como Secretário de Estado da Cultura ( onde está o Thesaurus da língua portuguesa que ele tanto reclamava como primeira tarefa de um SEC?). Mas a referência a este episódio é essencial para se perceber o conteúdo do artigo de VPV e o seu (nem sequer disfarçado) cinismo ao escrever que no interesse dele (MST) se prestou a corrigir alguns erros históricos de Rio das Flores.

Preâmbulo e Opiniões  no Texto de VPV.

2-No preâmbulo do seu texto que se pretende isento e crítico, VPV reconhece que um romance não tem de se preocupar com a verdade histórica. Mas acrescenta que  o romancista “ não pode é desconhecer  e falsificar o passado ou dar dele versões falsas, simplificadoras e propagandísticas.”

Como se viu no texto de VPV sobre Freire de Andrade,  VPV não faz outra coisa senão falsificar o passado e dar dele uma versão simplificadora e propagandística. E, na parte relativa às opiniões históricas de alguns personagens, VPV volta, no essencial, a  falsificar o passado e a dar dele uma versão simplificadora e propagandística.

E o que é esse essencial? Refiro-me à classificação do regime da Primeira República como um regime de partido único, na prática.

No Fundo, VPV afirma que a 1ª República não passou de uma disfarçada ditadura do Partido Democrático.

Nada mais falso e simplificador. A 1ª República não passou de uma guerra permanente e muitas vezes confusa entre facções e dentro das próprias facções. Tão confusa que há provas de que o seu último Primeiro Ministro, António Maria da Silva, esteve metido na conspiração que conduziu ao golpe do 28 de Maio contra…o seu próprio ministério.

Essencialmente, a sociedade dividia-se entre os que defendiam os interesses do capital e os que defendiam os interesses do trabalho, entre os republicanos e entre os monárquicos, entre os clericais e os anticlericais.

É claro que, entre cada uma destas correntes em conflito, havia enormes divisões. Dentro dos que defendiam o capital, era predominante, no princípio do regime republicano, o partido agrário ,do qual Pequito Rebelo terá sido o  político mais representativo. Mas havia também a União dos Interesses Económicos, vocacionada para a industrialização, que teve um papel decisivo depois da 1ª Grande Guerra. Dentro dos que defendiam os interesses do trabalho, o espectro ia de Domingos dos Santos, um social democrata que chegou a ser primeiro ministro, aos anarcosindicalistas do jornal Batalha. Entre os republicanos havia os que dialogavam com os monárquicos ( como Tamangini Barbosa, também Chefe do Governo, um intriguista que balançava entre os republicanos e os monárquicos) e os radicais como Afonso Costa. Entre os clericais e anticlericais  a gradação não era também menor, indo desde o Cardeal Bello a Afonso Costa, passando por António José de Almeida e por Bernardino Machado, cujas boas relações com a Igreja Católica eram conhecidas.

Tudo isto para concluir que a  tal ditadura do Partido Democrático invocada por VPV não passa de uma simplificação e de uma versão propagandística destinada a legitimar a ditadura real que veio depois, a de Salazar.

Quanto à ditadura do Partido Democrático perguntava o jornal A Montanha: “ Partido Democrático? Qual? O de Afonso Costa? O de Domingos Pereira? O de António Maria da Silva? O de Álvaro de Castro? Valha-nos Deus.”

E para caracterizar  decisivamente a República escrevia  a Batalha:

“ Os Conservadores, os capitalistas, pretendem acabar com a ficção democrática para substituí-la por um regime burguês; os operários desejam um regime proletário…E a república  vive mercê da luta travada entre os avançados e os conservadores, os radicais e os reaccionários, os operários e os patrões. No dia em que uma das correntes triunfar, adeus república, adeus António Maria da Silva.”

Foi uma destas correntes que triunfou no 28 de Maio, dizendo esse adeus à República e a António Maria da Silva.

3- Se VPV não é capaz de compreender a República também não é capaz de compreender o Salazarismo.

Em primeiro lugar que Salazar não era aquela figura inflexível que se imagina, não era apenas o máximo representante do “viver habitualmente”. É sabido que Salazar jogou sempre com um pau de dois bicos: com os monárquicos ( ao ponto de ter sido proposto para rei de Portugal) e com os republicanos; com Hitler e com os ingleses ( a seguir ao roubo de provisões dos camponeses para abastecimento do exército alemão, ao  negócio do volfrâmio, à compra do ouro judeu e aos três dias de luto nacional pela morte de Hitler, veio o estribilho da mais antiga aliança europeia e a cedência da base das Lages); com o partido agrário e com os industrialistas. Sempre para manter o principal motivo que o movia: o poder.

Mais: o salazarismo do final dos anos 50 e do princípio dos anos 60 representa o maior ataque ao “viver habitualmente” ocorrido entre o fim da monarquia e o 25 de Abril, com a expropriação consciente e planeada da riqueza agrícola a favor da industrialização.

Para concluir: na sua pretensa crítica científica aos grosseiros erros históricos do romance de MST, VPV comete erros, no essencial mais grosseiros que aqueles que critica.



publicado por henrique doria às 17:21
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4 comentários:
De afrodite a 13 de Dezembro de 2007 às 22:15
Venho desejar-te um Bom Natal.

(e levo já a prenda: a excelência da tua escrita, espelho da inteligência das tuas análises)


De zazie a 13 de Janeiro de 2008 às 13:10
Acho que não há muito para comentar porque este texto é desonesto, comparando o que não foi comparado.

Primeiro: a comparação que existiu foi entre a dita democracia inventada pela República e a democracia anterior, a constitucional dos liberais em tempos de monarquia.
A isto não respondeste nem podias responder porque foi tal e qual como ele disse. Quem limitou o direito de voto foram os republicanos. Ele até explicou bem o motivo- não podiam arriscar a influência campónia dos monárquicos sobre o povo mais ignorante.

Segundo, como saltaste sobre esta questão- que foi o tema da crítica e inventaste outra que não foi escrita pelo VPV- a comparação entre a monarquia e o salazarismo, não há nada para responder.

Claro que o salazarismo jogou sempre com um pau de 2 bicos. E quem o nega não é o VPV que nem entrou por aí. Quem o costuma negar és tu que teimas em dizer que o salazarismo foi beatice anti-republicana.

Tu é que costumas afirmar essa beatice que é falsa e, acerca da qual, o VPV também está farto de a desmontar noutros textos, Mas não nesta crítica ao MST, porque nem vinha ao caso, para ambos.

Para a crítica ser minimamente válida precisavas de 2 coisas:

Ler o livro do MST (que nunca leste) confrontá-lo com a crítica do VPV- ponto a ponto, como ele fez.

Agora inventar coisas que nem um nem outro disseram, apenas para vender o peixe e dar porrada num ódio de estimação, é fácil. Pena é ser desonesto.


De henrique doria a 13 de Janeiro de 2008 às 21:14
Está parva. Se fosse Verão, diria que era o calor lisboeta. Como é Inverno, a culpa deve ser da chuva, ou então de algum mecânico que se enganou nos parafusos.


De zazie a 26 de Janeiro de 2008 às 14:54
ehehe

Tu és muito engraçado.

Olha, meu doido varrido, deixo-te aqui o texto de hoje do VPV para veres como acertas ao lado.

Beijocas
";O)))
..........
D. Carlos

26.01.2008, Vasco Pulido Valente




OBloco protestou contra a participação, a 1 de Fevereiro, de unidades militares (as Fanfarras do Colégio Militar, do Exército e de Lanceiros 2) na cerimónia do assassinato do rei D. Carlos. O Bloco considera essa cerimónia uma "apologia da monarquia" e, naturalmente, uma condenação implícita da República". Não deixa de ser estranho como ainda se toma partido em querelas que ninguém percebe e toda a gente já esqueceu. Tanto mais que não há em Portugal a mais vaga ideia de restauração e o actual "pretendente", D. Duarte Nuno, uma criatura inócua, vive e passeia por aí, como quer e lhe apetece, muitas vezes numa capacidade semioficial. Mas D. Carlos continua a espicaçar o jacobinismo da esquerda (agora refugiado no Bloco) e a admiração tardia de uma certa direita.
Por quê? Primeiro, porque foi abatido, com o filho, no meio da rua. Segundo, porque era um português como dantes se gostava que os portugueses fossem: anticlerical, culto, promíscuo e, principalmente, corajoso. E terceiro, porque se criou a lenda de que poderia ter salvo a monarquia. A classe média e a pequena-burguesia de Lisboa detestavam a personagem. Como a "classe política". E a "aristocracia", se a palavra se aplica, no fim do século cada vez mais beata e reaccionária, não o estimava (nem ele a ela). Desde o princípio que o ódio a D. Carlos correu livre e, desde o princípio, que expressamente se incitou ao assassinato do homem (Guerra Junqueiro, por exemplo). Só na República a direita se arrependeu e, à sua maneira, o "canonizou".

D.Carlos compreendia muito bem que o "rotativismo" liberal estava esgotado, ou, pelo menos, que não resistiria à violência popular em Lisboa. Existiam duas soluções: reprimir pela força a agitação urbana (como a seguir se fez na ditadura) ou integrar o radicalismo no regime através de um novo arranjo partidário e de eleições, por assim dizer, "honestas". Apoiando João Franco, o Rei tentou a "segunda via". Sucede que a "segunda via", com 62 por cento da população na agricultura e 75 por cento de analfabetos, para não falar da quase completa ausência de uma indústria fabril, era inteiramente ilusória. Tarde ou cedo acabava mal. Acabou cedo. Os políticos da monarquia e o Partido Republicano viram com alívio a morte do rei, que imediatamente os salvava. Mas D. Carlos tornara impraticável um regresso pacífico ao "rotativismo" e, depois de uns meses de absoluta desordem, veio a revolução.
Comemorar o assassinato de um homem talentoso e bem-intencionado, prisioneiro do seu tempo e de uma velha história, não devia provocar a intolerância e a estupidez da esquerda. Provocou a do Bloco.




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