blog filosófico, cultural e político
Domingo, 13 de Janeiro de 2008
BEBO ESTE VINHO ACIDULADO E TRISTE

Bebo este vinho acidulado e triste

no copo onde boia

o tambor da minha infância a arder

e aí vou eu de espada flamejante em riste

olhando a vida toda a perecer-

-vou pela dor dos campos

onde morde a erva o boi da paciência

que me viu nascer

-vou pelos ares dentro dos olhos

duma águia errante

que o sol cega quando vai morrer

-vou pelos mares num anel

de fogo que os odres do céu sopram

 

pra mim e a ti - pra tudo envolver.

 

HENRIQUE DÓRIA



publicado por henrique doria às 12:08
link do post | comentar | favorito
|

3 comentários:
De Ana a 14 de Janeiro de 2008 às 03:13
Poeta Acalentas

Lindo!


De laura a 14 de Janeiro de 2008 às 10:49
voltarei.


De linfoma_a-escrota a 16 de Janeiro de 2008 às 02:07
Bebi atónito a garrafa sozinho,
foi como margarina a escorrer castidade
tapando as falhas no tronco da palmeira
que, de súbito, se transformará em pedra
e, mais tarde, quererá outro suco colorífico
para as truculentas engrenagens do humor
se descontrairem e sobreviverem a prumo
os não lavrados cultivos de pousio coado.

Acontece e gaguejo a tropeçar, cocoba,
às vezes, sem saber ou quando alguém
faz anos quebro tijolos com os caninos
e acordo maquilhado, vestido de marinheiro
com a tatuagem “a morte não é o fim”
desenhada a lapiseira no escroto rosa.

Com a alba cantada vinda do celeiro
pus-me a pé em direcção à estação,
num coreto de circo, rodeado de caganita
de pomba e minha mochila revistada,
ouvi a memória curta magoar um cãozinho
de orelhas arrebitadamente estrábicas,
devido ao permanente pânico que deve
ser estar habituado a ser alimentado
por tamanha besta selvagem e indomável.

Ainda hoje se vinga dos maus-tratos
que o fascismo lhe infligiu, traumatizado pelos
homicídios aos camuflados inimigos políticos,
em cada relance azarento, quando se cruza
com o vidro da loja de artesanato, vê-os.

Viciado a omnipotentes direitos solitários,
é o cozinheiro colonial sem culpa, sensibilizado
para a ignorância, agora vende estórias de graça
retidas nos pulmões dos pormenores perdidos,
grave comunicação incomodativa, somente interesse
por chaminé ilegal, de poliester, inocente, um dia
expande-se na firme trela da decisão que
já actua sozinha, emperrada hipocondria, escalando
sempre a mesma duna moçambicana, lá adormeceu
em choque, irradiando olhares distorcidos
a inalar o carvão das baionetas enferrujadas,
foram as visões de verdade da criança adulta
relembrando sua sofregidão paralizada em Sines.

A digestão foi interrompida pela melancia
do minotauro em guerra, delira com contacto
que o alucine da realidade até à campainha das
flores de beladonna, brancos pimentos que boiam
a pedido e ornamentam nosso licor que aceita
mas receia, atento à incapacidade cognitiva,
enquanto que, o cachorro Pirata que o acompanha
olha o vazio saturado, tentando desfocar
as vistas iluminadas pelo candeeiro fundido
de sua desistência, jovens em férias ouvem
rádio no bar em frente e encevadam a liberdade,
sem saberem do passado reaccionário do edifício.

Só com quem todos gozam e evitam falo eu,
mais vale a piadas farpas que despovoam
por honra à segurança, rotulando com severidade
sorridente, para ver se me insiro nas afinidades
de camisas bem parecidas e borbulha espremida,
aqui deixado à deriva descobrem-se conteúdos
inesperados, a dolorosa resistência que assombra
catacumbas de camaradas perdidos à floresta,
exasperei escutando labaredas oclusas de esperança
pois, clama por ferrolhos endógenos cerrados
que nenhuma candeia de vergonha contemporânea
pretende tão subterrânemente desenterrar, será que
mais valia ser peremptório e exclamar, crispado,
outra violência típica que recebe mal se aproxima:
“Desaparece daqui velho louco chôcho, estou
ocupado, cheiras mal e acabei de me perfumar!”



in quimicoterapia 2004









www.motoratasdemarte.blogspot.com


Comentar post

mais sobre mim
pesquisar
 
Dezembro 2017
Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2

3
4
5
6
7
8
9

11
12
13
14
15
16

17
18
19
20
21
22
23

24
25
26
27
28
29
30

31


posts recentes

DESTINADOS À TERRA

CHINESICE

FRAGMENTO

FRAGMENTO

POBRE AVÓ QUE ORA

SOMOS APENAS ÁGUA

FRAGMENTO

FRAGMENTO

CORREM EM MIM TRÊS RIOS

EM MEMÓRIA E LOUVOR DE AL...

arquivos

Dezembro 2017

Outubro 2017

Agosto 2017

Julho 2017

Junho 2017

Maio 2017

Abril 2017

Março 2017

Fevereiro 2017

Janeiro 2017

Dezembro 2016

Outubro 2016

Setembro 2016

Julho 2016

Junho 2016

Maio 2016

Abril 2016

Fevereiro 2016

Janeiro 2016

Dezembro 2015

Outubro 2015

Agosto 2015

Julho 2015

Junho 2015

Maio 2015

Abril 2015

Janeiro 2015

Dezembro 2014

Novembro 2014

Outubro 2014

Setembro 2014

Agosto 2014

Julho 2014

Junho 2014

Maio 2014

Abril 2014

Março 2014

Dezembro 2013

Novembro 2013

Setembro 2013

Agosto 2013

Julho 2013

Junho 2013

Abril 2013

Março 2013

Dezembro 2012

Outubro 2012

Setembro 2012

Junho 2012

Maio 2012

Abril 2012

Março 2012

Fevereiro 2012

Janeiro 2012

Dezembro 2011

Novembro 2011

Outubro 2011

Setembro 2011

Agosto 2011

Julho 2011

Junho 2011

Maio 2011

Abril 2011

Fevereiro 2011

Janeiro 2011

Dezembro 2010

Novembro 2010

Outubro 2010

Setembro 2010

Julho 2010

Junho 2010

Maio 2010

Abril 2010

Março 2010

Fevereiro 2010

Janeiro 2010

Dezembro 2009

Novembro 2009

Outubro 2009

Setembro 2009

Agosto 2009

Julho 2009

Junho 2009

Maio 2009

Abril 2009

Março 2009

Fevereiro 2009

Janeiro 2009

Dezembro 2008

Novembro 2008

Outubro 2008

Setembro 2008

Agosto 2008

Julho 2008

Junho 2008

Maio 2008

Abril 2008

Março 2008

Fevereiro 2008

Janeiro 2008

Dezembro 2007

Novembro 2007

Outubro 2007

Setembro 2007

Agosto 2007

Julho 2007

Junho 2007

Maio 2007

Abril 2007

Março 2007

Fevereiro 2007

Janeiro 2007

Dezembro 2006

Novembro 2006

Outubro 2006

Setembro 2006

Agosto 2006

Julho 2006

Junho 2006

Maio 2006

Abril 2006

Março 2006

Fevereiro 2006

Janeiro 2006

Dezembro 2005

Novembro 2005

Outubro 2005

Setembro 2005

Agosto 2005

Julho 2005

Junho 2005

Maio 2005

Abril 2005

Março 2005

Fevereiro 2005

Janeiro 2005

Dezembro 2004

Novembro 2004

Outubro 2004

Setembro 2004

Agosto 2004

Julho 2004

Junho 2004

Maio 2004

Abril 2004

Março 2004

blogs SAPO
subscrever feeds