blog filosófico, cultural e político
Sexta-feira, 25 de Abril de 2014
A MORTE DE CORIOLANO-continuação

Tudo é misterioso de verdade.Lavras no campo fértil do erro.Eu nunca fui eu mas a lenda de outro distorcida pelo bronze côncavo da memória. O meu próprio nome é o nevoeiro da lenda. Gneo, o impetuoso vindo do fundo da terra, ou Gaio o alegre e aéreo passageiro do céu?

 Nunca fui o chefe aristocrata desprezando os bens terrenos,  hostil à intriga e à mentira, mas o plebeu estrangeiro, o líder democrata para quem o ouro  era a recompensa não só merecida como desejada,  para quem todos os meios eram justos para alcançar o vinho do poder. Nunca fui aquele para quem a reserva ou o silêncio eram um instrumento de dominação,  mas aquele outro para quem  a palavra e o fascínio que ela exercia sobre as multidões eram a segunda vertigem do sexo. 

Ah! A bajulação!  Como os homens gostam de ser bajulados. Diz a um cobarde que é herói,  a um medíocre que é grande poeta, e terás tudo deles.

E eu queria ser tudo-  num momento hierofante, noutro heraldo, noutro daduco. Talvez eu quisesse mesmo ser a sibila e ter nos meus lábios o mistério da vida e da morte.

De verdade, não sei quem sou.

Do pai só recordo os pés enormes e verdes sobre o ataúde onde o colocaram quando morreu. E os seus gritos de prazer ao ser montado pela mãe,  enquanto dois escravos se masturbavam à porta do dormitório. 



publicado por henrique doria às 23:44
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1 comentário:
De Graça Pires a 26 de Abril de 2014 às 23:30
São dois textos excepcionais, amigo, este que escreveu sobre a morte de Coriolano. Já tinha lido o primeiro mas não me "atrevi" a comentar porque só conheço por alto a peça de Shakespeare. No entanto posso intuir na sua magnífica escrita o que pensou este homem quando decidiu entregar-se ao povo romano que não o amava nem ele parecia amar.
Esteticamente muito belo. Obrigada.
Beijo.


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