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Domingo, 10 de Agosto de 2014
A MORTE DE CORIOLANO-continuação

Volumnia sentia orgulhosa do seu destino: deixaria de pertencer à gens etrusca e envelhecida dos Taquinios, e passaria a pertencer à gens romana da antiga e heróica família dos Márcios, esses que se diziam descender do deus da guerra . Estava então tracado no voo das aves sagradas o seu desttino de mãe dum conquistador,  e isso alegrava a sua alma e enchia-a de paisagens de guerras e triunfos.O seu sonho tantas noites repetido iria ser realidade,  tonar-se-ia vida e carne.

O cortejo avançava lentamente, através dos campos da primavera vitoriosa, pela via que lhe permitiria chegar de Veios ao Tibre, e atravessar o grande rio para aceder a Roma. As rodas do carro puxado por uma biga saltavam na pedra, mas eram-lhe indiferentes os incómodos dessa viagem. Pelo contrário,  sentia até algum prazer na dureza sa viagem, porque contrária à suavidade da vida em Veios,  em que os banquetes se transformavam numa arte complacente com a indolência e a luxúria de homens e mulheres reclinados.

Desposada por Anco Márcio ela seria uma deusa, deusa ilusória mas deusa de qualquer modo, porque a ilusão começa sempre onde começa a verdade, ambas em círculo perfeito que se ora e se devora.

....

Aproximava-se agora da margem direita do Tibre.  Do outro lado do rio, as muralhas de Numa jovens e fortes quando comparadas com as  muralhas de Veios, velhas como a noite. Ouvia já risos de crianças misturados com gritos de mulheres. Os garotos atiravam-se do alto das árvores para as águas,  nada receando perante o prazer de nadar, sentindo-se dentro das próprias mães mas libertos das paredes das suas barrigas.

-Oh meu filho da puta se te afogas eu mato-te!-Sim, era esse amor de mãe simultaneamente protetor e ameaçador,  era esse amor de mãe que fazia os rapazes mais duros para a guerra e as raparigas mais férteis e fortes para o parto.Sim , era essa Roma em que amor era uma espada, era essa Roma que ali estava à sua frente. Sim, era a Roma em que estava pronta para entrar, pronta para o triunfo.

Aproximavam-se as mulheres do cortejo.

-Oh filhinho, que jóia ai trazes dentro da carroça para vir assim tão protegida por cinco leões e cinco panteras, uma carroça tão bem ajaezada?-Não sabiam que era ela, Volumnia, a futura esposa de Anco Márcio,  tão famoso e tão temido, que ali vinha? Como era possível que a notícia da sua chegada ainda não se tivesse espalhado pelas colinas de Roma? Como era possível que à sua chegada não fosse recebida com cânticos de guerra e gritos ao erguer das espadas?

-Deve ser alguma merdosa que aí vem lavar o cu ao rio. Cagaste muito oh merdosa?-Cala-te e desaparece, senão ficas aí rachada em duas, oh megera.Olha para esta espada bem afiada para te espetar no cu!

Noite, noite contra o dia, noite ordenando os dedos da morte.



publicado por henrique doria às 00:25
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1 comentário:
De Graça Pires a 13 de Agosto de 2014 às 12:23
Shakespeare sempre actual, conhecendo a natureza humana no seu lado melhor e no lado pior...
Beijo.


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