blog filosófico, cultural e político
Quarta-feira, 12 de Agosto de 2015
A MORTE DE CORIOLANO ( continuação)

Giorgio-De-Chirico-Gladiators-2--S.JPG

 

-Amigo do povo, dizes-te. Mas estás só Temístocles. És um guerreiro, e a guerra é a solidão absoluta. A cada instante, a cada golpe, estás só perante a morte. Estás no meio de centúrias, de coortes, de legiões, mas só podes ter-te a ti próprio entre a multidão para defenderes a tua vida. Aí, nos campos de batalha, só ouves o grito da morte. Não tens tempo sequer para pensar nos filhos, na mãe, na mulher amada. A morte, os gritos da morte, rodeiam-te por todos os lados esvaziando o tempo. Saltas sobre montes de mortos para defenderes a tua vida: inútil porque só há morte por toda a eternidade. Matas para poderes viver, desde a tímida lebre ao mais forte guerreiro. Vê as cicatrizes que trago no meu corpo: estas cicatrizes a minha face exibe-as como bandeiras do meu triunfo sobre muitos mortos. Só esse triunfo dá sentido à vida porque só esse triunfo me colocará na eternidade da memória dos homens. Por centúrias e centúrias de anos os homens hão-de lembrar estas cicatrizes e dizer: em Roma houve um imortal.

A plebe que dizes amar só sabe a cor do pó. Ignora a cor do sangue triunfante. A vida da plebe é a vida das bestas, apenas pó sobre pó. A minha vida será sempre lume sobre lume, esse lume que é sangue a iluminar os nossos lares e me há-de iluminar para toda a eternidade. A plebe não tem lares nem lume. Medo de morrer, hoje? Não: terror de morrer para sempre.

Vê aquela cabeça espetada num ramo de árvore. Os olhos que não tiveram tempo para se fecharem à vista da morte só gritam de terror. O braço que jaz por terra, longe do corpo que lhe dava vida despede-se c0m terror. A perna decepada em que acabaste de tropeçar só parece mexer-se por terror. O rosto que acabou por morder o pó da morte e se volta para o silêncio do céu sem fundo só fala de terror. O cavalo que tem as tripas a sair-lhe do corpo e a custo resfolga, exala o último bafo de terror. O charco de sangue e lama em que acabaste de abandonar as tuas sandálias enterradas só tem o visco do terror. A espada, a lança, a flecha, o escudo, o elmo falam todos uma só língua, a língua do terror, a única língua que falam romanos ou gregos, etruscos ou gauleses.

Silêncio, vazio, ausência de luz, ausência de espaço, ausência de tempo, unidos o princípio e o fim, unidos o ponto e o infinito.

Não há horror. Há apenas terror. Esta é a verdade do mundo.



publicado por henrique doria às 16:25
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1 comentário:
De Graça Pires a 14 de Agosto de 2015 às 13:53
Mais um texto esteticamente muito belo. Transposto para os dias de hoje, o que mudou? A mesma crueldade, o mesmo desprezo pela vida, a mesma ausência de amor. Digo consigo: " Há apenas terror. Esta é a verdade do mundo."
Um beijo.


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