blog filosófico, cultural e político
Sábado, 7 de Junho de 2014
CORIOLANO ( cont.)

Ouve a voz da tua mãe Coriolano, a que te roga, a que implora piedade, a que se ajoelha frente ao seu próprio filho sobre o qual sempre ergueu o braço e o ricínio. Olhas para o povo romano como a serpente que comeu ervas malignas e abres a temível boca prestes a destruir com o seu veneno aqueles em cujo seio foste criado. Seguro os teus joelhos oh vingador dos romanos ingratos. Quando foste expulso da cidade pensei que nunca mais veria aquele que era a minha alegria, o meu orgulho e o meu repouso. Se o não matasse a humilhação nem a fome nem os lobos dos montes haveriam de matá-lo os volscos a quem mais do que nenhum outro homem sobre a terra eras odioso. Quando soube que estavas vivo entre os inimigos de Roma o meu coração voltou a alegrar-se e encheu-se de esperança do teu regresso. Mas o teu regresso foi a maldição de Roma. Tu, o meu filho único, o protegido de Marte e do Janus bifronte que tudo sabe e tudo vê, tinha-se transformado no mais duro inimigo da mãe Roma.

Mas justifica-se que pela injustiça de alguns sofram todos os romanos? Sofra Valéria, a tua mulher, sofram os teus filhos que ainda há pouco começaram a balbuciar tímidas palavras, sofra a tua mãe em cujo ventre foste gerado?

Criei-te para seres superior ao comum dos mortais na coragem, na força e na altivez. Não te criei para seres superior no ódio ao teu próprio povo.

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Foste tu que me criaste tal como eu sou. Assim como o escultor que moldou o lares e os penates cuja memória, inspiração e proteção guardas no altar da tua casa, assim fui eu moldado por ti, mãe. Eu sou a tua obra e a obra dos teus antepassados cuja memória está em ti como a força que te conduz. Conduziste-me também até aqui, até ao desprezo e ao ódio àqueles que sempre defendi derramando o meu próprio sangue, porque o meu sangue é o sangue deles, a minha voz é a sua voz, a minha terra é a sua terra sagrada cujos limites forma estabelecidos por ordem dos deuses. Queixas-te daquele que tu própria criaste. Queixas-te da tua própria obra.

.............................................................................................................................................................................................................................................

Embora há muito tenha depositado os brinquedos no altar dos deuses protetores, neste momento eu sou o teu frágil menino mãe, o que te abraça e chora contigo mãe. Mais alta que a pátria e os seus senadores, mais alta que os deuses e os seus sacerdores.

Morreu o teu esposo  mas tu foste pai e mãe que fez da solidão um campo de batalha. E tu triunfaste sempre da solidão.

Mãe da vida mãe da morte mãe do amor mãe da dor mãe da fortuna mãe da desgraça mãe da alegria mãe do sofrimento mãe do amparo mãe do alheamento mãe da memória mãe do esquecimento mãe do socorro mãe do abandono mãe do sucesso mãe da perdição mãe do riso mãe das lágrimas mãe do lar mãe da terra mãe mãe da fertilidade mãe da esterilidade mãe da vitória mãe da derrota.

Mãe da ajuda, mãe dos desamparados, mãe auxiliadora, mãe das flores, mãe do bastão, mão da conceição, mãe da consolação, mãe da carpição, mãe desatadora de nós, mãe da soledade, mãe da esperança, mãe dos montes, mãe das fontes, mãe dos mares, mãe da luz.

Mãe do bom conselho, mãe do bom socorro, mãe da boa esperança, mãe da boa viagem, mãe da boa morte, mãe coroada de louros.

Mãe dos mártires e mãe medianeira, mãe da glória e mãe da humilhação: ambas estão lançadas agora sobre o teu próprio filho para teu triunfo.



publicado por henrique doria às 09:21
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4 comentários:
De Julia Moura Lopes a 22 de Maio de 2014 às 23:30

Hummm! Isto promete, Henrique, parabéns!.
Fiquei com um gosto de querer mais! Muito bonito!


De Anónimo a 23 de Maio de 2014 às 00:25
Bom faro e bom ritmo.
Td pra dar certo .


De Anónimo a 23 de Maio de 2014 às 00:29
Comentário meu Glaucia .
Bom faro e bom ritmo .


De Graça Pires a 23 de Maio de 2014 às 17:22
Excelente texto, com a dramaticidade certa e sentida.
Gostei da resposta de Coriolano à mãe e gostei, sobretudo do último texto que é por certo uma "prece" do autor à mãe de todas as horas, de todos os sonhos e de todas as mágoas...
Beijo.


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