blog filosófico, cultural e político
Domingo, 27 de Fevereiro de 2011
UM CADÁVER PERDIDO, OU OS MALEFÍCIOS DO LIBERALISMO

 

A recente história da D. Augusta Martinho, a senhora que morreu abandonada num apartamento da Rinchoa, e cujo cadáver ficou encerrado, durante nove anos, até que o fisco, que perdoa aos fortes mas não esquece os fracos, sem sequer os mortos, lhe vendeu o apartamento, nove anos após a morte, essa história tem servido de desavergonhado e cínico pretexto para os liberais da nossa praça atacarem o que ainda resta do decepado Estado Social.

Um dos exemplos desse ataque foi a crónica publicada no Expresso de 19 de Fevereiro por uma das lumináriasdo nosso provincianismo liberal  que dá pelo nome de Henrique Raposo. Diz o Dr. Rapaso na sua crónica:

"... o Estado moderno tem um demónio na cave ...tem o poder para demonizar uma sociedade até ao ponto de destruir a vida de bairro e os laços de vizinhança e de civilidade, essas armas pré-políticas de um país."

O discurso do Dr. Raposo é o de um incendiário que se arvorou em bombeiro.

Haverá alguém minimamente decente e com dois dedos de cabeça que não perceba que o caso da D. Augusta é o resultado da destruição dos laços de sociabilidade e civilidade pela prática e o pensamento liberais e capitalistas?

Não garantia o supremo guia do pensamento liberal que foi Adam Smith, que se cada um tratasse apenas de si próprio, a mão invisível do egotismo iria conduzir as sociedades a um bem estar geral?

O princípio de cada um por si não é o primeiro mandamento da bíblia liberal, contra o "demónio" do pensamento socialista que só concebe o eu conjuntamente com o outro?

Não é o capitalismo selvagem dos dias de hoje, que vai dos ostensivos vigaristas como Madoff e os nossos Oliveira e Costa e seus amigos, ao cínico Alexandre Soares dos Santos (que é, juntamente com Belmiro de Azevedo, a principal causa do estado da nossa economia através do aniquilamento que praticam do tecido protutivo nacional) o resultado evidente do pensamento e da prática liberais?

Deixará esse capitalismo selvagem, causa e consequência do liberalismo económico e social, algum espaço para a criação de laços de sociabilidade e solidariedade? Não é a palavra solidariedade uma palavra maldita para o pensamento liberal, que prefere a caridade como palavra chave das relações sociais?

Aos empregados do cínico Soares dos Santos que ganham o salária mínimo nacional, estão sujeitos a contratos a prazo de seis meses, e têm de trabalhar num segundo emprego até às 12 horas de trabalho diário para poderem sobreviver, que dão a chave de casa aos filhos ainda crianças porque à hora de saírem da escola pública os pais ainda estão a trabalhar, a esses é-lhes deixado pelo liberalismo económico algum espaço para os laços de sociabilidade, para os "laços de vizinhança e civilidade", no dizer do Dr. Raposo?

Não sabemos nós que estas cidades-monstros-de-solidão criadas pelo capitalismo selvagem do pensamento liberal, esta economia que transforma o homem em simples peça de uma monstruosa máquina de fazer cada vez mais dinheiro para os cada vez mais poderosos, retiraram aos homens o corpo e a alma que lhes permitiam criar laços de sociabilidade e civilidade?

E que, apesar de tudo, o Estado é o único instrumento que têm os homens (não cidadãos, porque tal não lhes é permitido) aos quais o liberal-capitalismo retirou o corpo e a alma, para lhes conceder algum apoio quando essa máquina monstruosa de fabricar dinheiro, que Dr. Raposo defende, deles se desfaz como dum farrapo velho?

Como podemos não nos indignar quando vemos os liberais Dr.s Raposo, incendiários dos laços de humanidade e sociablidade, transformarem-se em bombeiros?



publicado por henrique doria às 10:36
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