blog filosófico, cultural e político
Domingo, 3 de Abril de 2005
A MORTE DE UM PAPA DE TRANSIÇÃO
A morte de João Paulo II mostrou a importância que a Igreja Católica tem no mundo de hoje. De todos os quadrantes políticos e religiosos vieram demonstrações de pesar pela morte do Papa Woityla. Estamos em crer que se tratou de um papa de transição, porque se, por um lado, apoiou os movimentos sociais em favor do fim da miséria e do sofrimento no mundo, o maior pecado que nele existe, por outro lado foi um papa conservador quer no que toca às questões dogmáticas da Igreja, quer no que toca a uma certa condescendência perante os poderes que dominam a terra, em particular o poder do dinheiro.
O essencial que resulta do pontificado de João Paulo II é a sua defesa intransigente de uma Igreja de dogmas.
Se virmos bem, a história da Igreja Católica é uma história de controvérsias, e a primeira delas é o dogma da ressurreição de Cristo.
Aquele que é, cronologicamente, o primeiro dos evangelhos, o de Marcos, tem sobre isso uma frase que nada autoriza à crença na ressurreição de Cristo. Na versão latina do evangelho ( pois o original foi escrito em grego), certamente do conhecimento de Marcos e por ele autorizada, está escrito: “Ressurrexit non est hic.”, palavras que o anjo do Senhor terá dito às três mulheres que foram visitar o túmulo de Cristo, levando perfumes para o embalsamarem.
Como é sabido, o latim não usava vírgulas, e a colocação da vírgula resulta das traduções. Ora o lugar da vírgula nas traduções faz toda a diferença, e tornou-se o fundamento de um dogma. Os que acreditavam na ressurreição, colocavam a vírgula depois da palavra ressuscitou. E então a frase latina teria a seguinte tradução: “Ressuscitou, não está aqui.” Outros, que não aceitavam esse dogma, traduziram: “Não ressuscitou, está aqui”, colocando a vírgula depois do “non”.
Se analisarmos sem a luz da fé o evangelho de Marcos, muito dificilmente retiramos dele o dogma da ressurreição.
As três mulheres que foram visitar o túmulo pertenciam ao círculo restrito de Cristo. Uma delas era Maria Madalena, companheira de Cristo, como os apóstolos. Outra, Maria, mãe de Tiago apóstolo, e uma terceira, que no evangelho de Marcos é identificada como Salomé, em Lucas como Joana, sendo que em Mateus só são mencionadas as duas primeiras, e em João só é mesmo mencionada a primeira, Maria Madalena.
Que iam elas fazer ao túmulo de Cristo? Embalsamar o seu corpo.
Ora se iam embalsamar o seu corpo era porque não acreditavam na sua ressurreição ao terceiro dia, como afirma o dogma, ou que ela lhes não tinha sido anunciada por Cristo, o que é estranho quando se trata do círculo mais restrito de mulheres que acompanhavam Cristo, como se retira dos evangelhos.
Mais: o evangelho autêntico de Marcos terminava em 16.7, sendo o evangelho de 16.8 a 16.20, tal como hoje surge nas bíblias cristãs, um acrescento posterior à morte de Marcos.
Este é o primeiro dos grandes dogmas em que assenta a fé católica.
E este dogma limita claramente a influência da Igreja no mundo. Pensamos que o Cristianismo, como doutrina da salvação através do amor, como doutrina dos humildes (e usamos aqui a palavra humilde no seu sentido mais largo), dos pobres e dos excluídos, não necessita desse dogma para existir e se afirmar como religião católica, isto é, universal.
Uma outra limitação da sua influência é a aliança com o poder temporal. Cristo repudia expressamente essa aliança em vários passos dos evangelhos. E, historicamente, ela só surge depois do imperador Constantino. Antes de Constantino, a Igreja era, essencialmente, uma Igreja dos humildes, dos pobres e excluídos do Império Romano. Depois de Constantino passou a ser uma Igreja do poder temporal, e os papas passaram a ser, antes de tudo, senhores temporais.
O maior exemplo destes papas-reis é o famoso papa Inocêncio III, de seu nome Lotário Conti, que foi papa aos 38 anos porque era o membro mais inteligente e ambicioso de uma poderosa família de senhores feudais, que foi escolhido como papa em Janeiro de 1198 sem sequer ter ordens religiosas, foi ordenado no dia 21 de Fevereiro, para poder ser consagrado como papa no dia seguinte.
Podemos afirmar que o longo período dos papas senhores temporais vai do tempo do imperador Constantino ao papa Pio XII, o papa colaboracionista com o fascismo e o nazismo.
Depois de Pio XII veio a grande viragem no pontificado romano com João XXIII, em que a Igreja Católica se começou a voltar para os humildes, e, depois, com João Paulo I que afirmou claramente a vocação franciscana da Igreja.
Com João Paulo II há um recuo na afirmação dessa vocação franciscana da Igreja, uma aproximação aos poderosos do mundo, aproximação essa que não estava isenta de alguma crítica (como se viu no caso do Iraque) e de alguma preocupação com os humildes e os que sofrem.
Estamos em crer que a Igreja Católica irá, cada vez mais, acentuar a sua vocação franciscana, que é a mais autêntica interpretação da doutrina de Cristo, que sempre afirmou que o seu reino seria espiritual e não material, seria dos humildes e não dos poderosos. Que pregava por parábolas, mas não ensinava dogmas. O que constitui o regresso do cristianismo às suas origens.
Nesse sentido, João Paulo II foi um papa de transição. Sem deixar de ser um grande papa.


publicado por henrique doria às 23:14
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4 comentários:
De Anónimo a 21 de Abril de 2005 às 09:50
de papa de transição em papa de transição, é? :/

gostava de te ler mais sobre o assunto, que me interessou sempre e cada vez mais
:)laura
(http://degrausdelaura.blogspot.com)
(mailto:degrausdelaura@hotmail.com)


De Anónimo a 18 de Abril de 2005 às 01:13
Puseste o dedo na ferida. A Igreja Católica Apostólica, afastou-se do Cristianismo quando se tornou também Romana. A Paz de Constantino foi representando várias alianças com o poder, vários distanciamentos da Mensagem original.
Mas houve Papas Messianicos. João Paulo, Karol Wojtyla foi, sem dúvida mais evocativo de Jesus do que de S.Pedro. Claro que acompanhou com quem estava em maiores faltas, como os poderosos... Não são os justos que precisam da palavra. Ela ouviu-se!
Mas, digo-te, João Paulo faz-me falta neste mundo e não é por ter sido Papa - isso foi uma das raras centelhas de justiça, que permitiu que o conhecessemos, como Grande Homem Bom!
Sobre a Ressurreição e as Escrituras, não vou comentar, pois tinha de abrir um blog só para isso :) Fico-me pela afirmação, muito gasta mas verdadeira, de que é uma questão de Fé. As discrepâncias nos Evangelhos tornam mais credíveis os acontecimentos. Uma historinha bem urdida teria sido muito melhor contada. Assim, ficou a visão de cada narrador, a confusão que deve ter sentido e era natural, também. E a ideia de Ressurreição não é linear... Podes pensar no corpo a erguer-se de novo; podes pensar no corpo astral; ou no corpo causal; ou em milhentas coisas que não sabemos como são.
Acabei por me deixar levar e escrever mais!
:)
Um beijo!
(depois venho ler o resto! O teu artigo sobre a Casa da Música também tem tanto que se lhe diga!!!!) FataMorgana
(http://fatamorgana.romanesca.com/blogger.html)
(mailto:backinavalon@yahoo.com)


De Anónimo a 6 de Abril de 2005 às 13:26

Completamente de acordo contigo. Uma abordagem objectiva entre tantas que lemos e ouvimos por aí. Gostava que este teu artigo tivesse uma maior divulgação... LibeLua
(http://oblogdalibelua2.blogs.sapo.pt/)
(mailto:libelua@sapo.pt)


De Anónimo a 4 de Abril de 2005 às 01:58
Foi sim um grande homem que como Papa esteve condicionado pelos "poderes" que o rodeavam. Chamas-lhe Papa de transicão e muito bem. Esperemos que não haja retrocesso com o próximo, pois já é tempo do regresso às origens. Bjos amita
(http://brancoepreto.blogs.sapo.pt)
(mailto:amitaf324@hotmail.com)


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