blog filosófico, cultural e político
Sábado, 1 de Setembro de 2007
DO AL-ANDALUZ À OCCITÂNIA

Mais tarde, estudando a influência da civilização muçulmana na civilização ocidental, apercebi-me de como a civilização ocidental recebeu, através da Occitânia, a cultura muçulmana do Al-Andaluz e a transmitiu a toda a Europa.

O islamismo e o gnosticismo cátaro tinham uma essência comum: para ambas as religiões existia uma separação radical entre o homem e a divindade, uma separação radical que Kierkgaard designou de “uma diferença qualitativa infinita” entre o homem e Deus.

Esta proximidade da essência de ambas as religiões, e a proximidade geográfica entre a Occitânia e a brilhante civilização árabe do Al-Andaluz iria produzir inevitáveis consequências: as trocas comerciais foram acompanhadas de trocas culturais.

Muito antes de Dante e de Petrarca já o Ocidente tinha uma notável produção literária, particularmente poética.

Ora a poesia ocidental da Idade Média nasceu no sul de França, na Occitânia, na Aquitânia e na Provença, as regiões da actual França mais próxima do Al-Andaluz. Um razoável número de occitanos, aquitanos e provençais falava e escrevia fluentemente o árabe. E foi através do contacto com os grandes poetas místicos al Hlaj, al Gazzali e Sohrawardi que os trovadores da Provença beberam o amor cortês, que é o tema essencial do seu lirismo.

Escrevia al Hallaj:

“ Matando-me me fareis viver, pois para mim viver é morrer e morrer é viver.”

Conhecendo nós a tragédia cátara compreenderemos melhor o sentido histórico destas palavras. Mas compreenderemos também a origem de expressões como “morrer de amor” e da “coita de amor” dos poetas provençais. Cantigas de amor, cantigas de amigo, cantigas de escárnio e maldizer também forma bebidas pelos poetas occitanos do lirismo árabe.

Como bem perceberam os mais lúcidos estudiosos da poesia occitana, nomeadamente DENIS DE ROUGEMONT  no seu fabuloso O AMOR  E O OCIDENTE, o amor místico está subjacente á poesia trovadoresca. A amada dos poemas occitanos é Deus muito mais do que a mulher.A expressão “midous” corrente nesses poemas significa “meu senhor” e não “minha senhora”.

Os temas da poesia occitana eram também os temas da poesia árabe: o amor, a morte, o sofrimento de amor, a contemplação da natureza, a solidão, a meditação.

Foi uma retórica cifrada, altamente requintada nos seus processos, cheia de simbolismo e ambiguidades que os poetas místicos árabes transmitiram aos ocidentais da Occitânia.

As própria técnicas literárias forma bebidas dos árabes. Guillaume de Poitiers, o primeiro poeta trovador, reproduziu a técnica árabe do zadjal em cinco dos seus onze poemas que nos restam. O Zdjal, forma poética dominante na Pérsia de então, é um poema curto, de entre dez a quinze estâncias, de rima única, aa,xa,xa,xa,etc.

Outra técnica literária  bebida dos árabes pelos occitanos e provençais e foi a repetição de versos, particularmente no fim de cada estância, dando à poesia uma particular musicalidade.

E essa busca incessante da musicalidade na poesia árabe levou à adopção da rima, que foi outro dos grandes legados árabes à poesia ocidental.

A rima já existia entre os latinos. Mas a língua latina possuía, como a grega, suficiente musicalidade para evitar o esforço da rima. Esta foi um acrescento de musicalidade que começou a ser praticada no século III, particularmente em alguns hinos católicos. Mas só no século XI ela se vulgariza no ocidente por influência da poesia árabe, que era rimada. A maior obra poética árabe, o enorme poema épico de Rumi intitulado “Mathnawi”, é toda rimada, de uma rima tão encantatória que faz tornar o poema em melodia, quando recitado, devendo o seu título ao nome de uma composição poética.

Deu-se por volta do ano mil o esplendor da civilização árabe do Al-Andaluz. E foi por volta do ano mil que o catarismo começou a ganhar força naquilo que é a actual Catalunha, na Provença e, sobretudo, na Occitânia.

A História tem continuidades e continuidades que é apaixonante conhecer. 

 Tanto bastou para surgir em mim o desejo de visitar e conhecer, mesmo que superficialmente, a Occitânia.



publicado por henrique doria às 22:55
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15 comentários:
De pnet a 11 de Setembro de 2007 às 15:30
Miudas muito giras aqui ;-)

www.pnet.pt


De zazie a 11 de Setembro de 2007 às 19:09
Há que ter mais cuidado com estas supostas informações de cátedra sem uma única referência bibliográfica.

Não existem certezas acerca desta ligação. E não é com um texto que apenas afirma sem indicar fontes que se faz qualquer coisa de útil em matéria de informação histórica.

Fica aqui um link. Pelo menos tem bibliografia para quem se queira informar. E isso é que é honesto.

http://www.ditl.info/arttest/art4482.php

...............

É que não fazer isto, apenas por militância de ideias é mesmo do mais pernicioso que se pode fazer
..................

Mas enfim, eu é que sou a fanática obscurantista e tu é que és o científico e racional.


De henrique doria a 12 de Setembro de 2007 às 23:21
Mas eu sou um pobre ignorante, não falo de cátedra. E digo isto sem falsa modéstia. Tive a sorte de conhecer homens sábios:Agostinho da Silva, Luís de Albuquerque, Joaquim Namorado, para só falar em três.
A prova de que não falo de cátedra é o não indicar bibliografia. Esse é o hábito dos catedráticos.O pouco que sei, sei que o devo a outros, mas também a mim, à minha reflexão pessoal, à minha visão pessoal. Umas vezes certa, outras errada, mas minha


De Francisco Couto Fontes a 28 de Janeiro de 2008 às 19:50
Estou farto de ver o fascismo catedratico a pedir bibliografia, a dizerem como devo escrever uma tese, usando métodos de 1493 e não de 2008, que tenho de juntar bibliografia, que devo pôr as fotos e esquemas no fim em anexo, mas os livros modernos não fazem assim e já os beneditinos - ferozes defensores da Inquisição não o faziam logo estes "doutores" são mais inquisidores que os beneditinos, coisa dificil, deixam de copiar bibliografia, escrevam merda mas escrevam merda da vossa cabeça.
Francisco do Couto Fontes


De zazie a 13 de Setembro de 2007 às 17:23
Eu admito que exagerei um tanto na crítica. Mas a ideia mantem-se.
Precisamente por sermos todos amadores é que se devem indicar bibliografias.

E digo isto, apenas pensando, de boa fé. Até com um ligeiro pendor pedagógico.
Qualquer jovem que leia uma informação, dada como certa e sem maism pode pensar que esta é a verdade a que se chegou. Sem mais alternativas.

E isto é válido para tudo. Precisamente tudo o que não é do âmbito opinativo. Este texto não é apresentado como uma opinião pessoal e muito menos como uma reflexão acerca de algo que seja do domínio público- do senso comum.

Por isso é que até parece de cátedra.


De zazie a 13 de Setembro de 2007 às 17:44
Para clarificar:

tu, para escreveres este texto não precisaste de ler nada? não foste buscar informação a lado nenhum?

É esta a questão. Apenas esta. tudo o que se vai buscar, signfica que já foi trabalhado. E tudo o que não é exclusivamente nosso, deve ser referido de onde se foi buscar.

Neste caso, há tanta opinião contrária que a síntese é apenas uma das hipóteses e até com misturas a mais. Mas, mesmo essa hipótese, já foi colocada por alguém antes de ti.

Não há opinião. Há uso de informação alheia. Logo tem de haver indicação de onde ela veio.

Se assim não fosse nem o podias ter escrito.


De zazie a 13 de Setembro de 2007 às 17:56
Aliás, citas um, o Denis de Rougemont . Claro que tinhas de ter lido. Mas não chega, porque não é tudo da autoria dele e não está absolutamente provada a raiz dos troubadors na tradição árabe. E muito menos a ligação passados tantos séculos, aos cátaros.
Há também um fundo clássico, desde Ovidio .
Em relação à própria tradição moura, até há quem defenda que ela ganha características específicas no AL-Andaluz . A mistura com a Pérsia, então, ainda é mais estranha e nem foi daí que vieram mouros para a Península.


De zazie a 13 de Setembro de 2007 às 17:58
Aliás, citas um, o Denis de Rougemont . Claro que tinhas de ter lido. Mas não chega, porque não é tudo da autoria dele e não está absolutamente provada a raiz dos troubadors na tradição árabe. E muito menos a ligação passados tantos séculos, aos cátaros.
Há também um fundo clássico, desde Ovidio .
Em relação à própria tradição moura, até há quem defenda que ela ganha características específicas no AL-Andaluz .
..............

é pá, já me baralhei com estas verificações e prontuários do sapo
ehhehehe


De henrique doria a 14 de Setembro de 2007 às 00:08
Zazie
Eu poderia dar-te uma enorme lista de livros que consultei, e continuarei a consultar para escrever o que estou a escrever: Desde DENIS DE ROUGEMONT- O Amor e o Ociedente; ADALBERTO ALVES- O Meu Coração é Árabe; MOJDEH BAYAT-Contos do País dos Sufis;TEXTOS PORTUGUESES MEDIEVAIS, de Correia de Oliveira: Stephen O`Shea- A Heresia dos Cátaros;JEAN BLUM; Les Cathares;RAIMONDE REZNIKOV-Cathares e Templiers;JORGE BLASCHKE- História Oculta da Igreja;DECLÍNIO E QUEDA DO IMPERIO ROMANO, Edward Gibon; HISTÓRIA DA FILOSOFIA OCIDENTAL, Bertrand Russel;FRANCINE GENE - Esclarmonde;Michel Roquebert- Histoire des Cathares;ANNE BRENON-Les Femmes Cathares... etc.etc.etc.
Mas sobre os temas que abordo, todos ao de leve, qualquer um pode encontrar esta bibliografia e muita outra mais. Desfolhá-la talvez seja pretensioso. Ou talvez não... Beijos.


De zazie a 14 de Setembro de 2007 às 12:31
Ok,

Era apenasa isto. Também não disse mais nada. A não ser que a tese não está provada. É até bastante frágil, essa ligação entre trovadores, poesia árabe e cátaros. Já para não dizer que tem hiatos históricos gigantes. Não se salta do Al-Andaluz para a cruzada albigence , assim. Logo os cátaros que eram uns chatos anti-hedonistas. Que tenham existido trovadores que também foram cátaros está provado, agora a influência de uma coisa a outra, não.


De Júlia a 1 de Outubro de 2007 às 22:43
Henrique, que é feito de ti, amigo?

beijinho


De henrique doria a 2 de Outubro de 2007 às 23:34
Querida Amiga
Como o Santana Lopes, tenho andado por aí. Sem pensar muito por onde ando.Hoje voltei aqui, à minha casa, porque, como diria o filósofo, esta casa é a habitação do ser.No dia 5, à noite, estarei no sítio do costume com a malta do Incomunidade. Espero ver-te lá. Beijos.


De Munássir Ebrahim a 2 de Janeiro de 2008 às 23:46
Chama-se Sufismo ao amor cortês e foi essa a doutrina que os grandes mistícos cristãos foram beber ao poetas andaluzes.É caso para perguntar, onde andam os poetas andaluzes de ahóóóráááá!!!???


De henrique doria a 6 de Janeiro de 2008 às 10:48
Mas Lorca era andaluz! E a poesai dele esdtá toda impregnada da poesia árabe. Um abraço


De Anónimo a 26 de Dezembro de 2010 às 23:31
Talvez fosse curioso consultarem "O Islã e a Formação da Europa, de 570 a 1215", de David Levering Lewis, Editora Amarilys, 2010, Brasil.


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