blog filosófico, cultural e político
Segunda-feira, 3 de Dezembro de 2007
RESPOSTA A UM CALUNIADOR

                       

1-Num país onde a maledicência é o sal das gentes, não é de estranhar o raivoso ataque levado a cabo por Vasco Pulido Valente ( VPV) contra Miguel Sousa Tavares no PÚBLICO de 24 de Novembro.

E nem sequer é de estranhar a importância que a comunicação social deu a essa descarga de bílis vertida para as páginas do referido diário. A incultura generalizada da comunicação social e do público seu leitor só pode alimentar-se da sub-cultura que constitui este tipo de polémicas.

Não perderia eu tempo com o escrito de VPV se, ao denunciar na blogosfera a sua desonestidade, intelectual não tivesse sido desafiado a provar o que dizia.

Aqui vai a prova.

VPV é um indivíduo que padece de uma vaidade descomunal misturada com um reaccionarismo atávico. São factos notórios, e como tal não carecem de qualquer prova, como se diz em jargão jurídico.

O que carece de prova são a falsificação  ou a incapacidade de interpretação da História frequemtes em VPV, o que é grave porque nessa área é suposto ser investigador, portanto, especialista.

Procurarei também provar  que VPV pode ser muito coisa, até Secretário de Estado, mas crítico literário não é com toda a certeza. E embora RIO DAS FLORES não seja propriamente um bom romance, VPV  fez tudo menos a crítica literária que se propôs fazer no seu cínico texto.

2- Quanto à falsificação da verdade histórica, misturada com a calúnia e a ofensa à memória de uma das mais notáveis figuras da nossa História, vamos recuar um pouco, ao artigo publicado VPV  no mesmo jornal, em 23 de Novembro.

Aí escreveu VPV:

“Por que sucedeu isto (a “guerra da independênica” despromovida a “guerra peninsular”)? Por causa da subordinação cultural de Portugal à França e ao mito da França como "libertadora da humanidade" (que não se adaptava bem à razia de Bonaparte). E por causa do republicanismo, que nunca desculpou à Igreja, ao "Antigo Regime" e própria Monarquia liberal a defesa do país contra a "revolução", mesmo sob a forma do império napoleónico. O homem da época passou a ser Gomes Freire de Andrade, um traidor que lutou até ao fim pelo inimigo.”

VPV falsifica aqui a verdade histórica.

Ao contrário do que afirma VPV, o General Gomes Freire de Andrade foi um grande patriota e um herói nacional.

E não acredito que VPV diga o que diz de Gomes Freire de Andrade por ignorância. Isto porque não me acredito que VPV ignore uma obra essencial para o conhecimento do século XIX português, as  “MEMÓRIAS DO MARQUES DE FRONTEIRA E D`ALORNA”, pese embora esta obra nem sequer mereça uma nota de rodapé a indicá-la como fonte no recém-publicado livro de VPV  “IR PRÒ MANETA”.

A calúnia a Gomes Freire de Andrade é antiga, vinda sempre das hostes da Igreja Católica e do Miguelismo.

Mas o Marquês de Fronteira, nobre a quem não se pode atribuir qualquer radicalismo liberal, que conheceu pessoalmente Gomes Freire de Andrade, escreveu sobre ele:

“ A concorrência do povo áquellas revistas ( revistas  às tropas portuguesas no Campo das Freiras, em Lisboa)…e as demonstrações de sympathia que nelas recebiam os Generaes Alorna e Gomes Freire davam grande cuidado á polícia de Junot.

Um dia, desfilando o regimento de Lippe, em frente do Marquez, o povo gritou: Viva quem nos há-de salvar! Vivam os generaes Marquez de Alorna e Gomes Freire! E o regimento correspondeu aos vivas…” ( Memórias, I-II, pp 44).

Nas suas MEMÓRIAS, o Marquês de Fronteira relata ainda como o Núncio Apostólico em Lisboa, Monsenhor Caleppi, pretendendo organizar em Lisboa um levantamento contra os franceses, “ Empregou todos os meios com os Generaes Marquez de Alorna e Gomes Freire…para conseguir os seus projectos de reacção…” Não o conseguindo “…não porque encontrasse má vontade, mas porque faltavam os meios…” (obra citada, pp.48).

Escreveu ainda, mais à frente, o autor das MEMÓRIAS sobre Gomes Freire de Andrade, e a propósito da conspiração contra os ingleses que dominavam Portugal::

“…os proprios individuos que mais abominam revoluções e conspirações faziam justiça ao patriotismo do chefe da projectada revolta, o General Gomes Freire de Andrade.”( idem, pp. 162). Que “…nunca quis acceitar commissão alguma nos corpos de exercito que invadiram Portugal, pelo que foi sempre considerado pelo Governo prtuguez como general e nunca metido em processo.”(pp.163).

Quando o foi enforcado e o seu corpo queimado e as cinzas lançadas ao mar por liderar a revolta contra o domínio dos ingleses,

“ Foi um dia de lucto para Lisboa, os habitantes recolheram-se em suas casas, a cidade parecia deserta…”

3- Mas vejamos o comportamento daqueles que VPV considera patriotas.

 Os embaixadores de Napoleão à Corte de Lisboa “…foram bem acolhidos pelo Principe ( futuro rei D. João VI, e então regente) que fez ao Marechal Lanes a honra de ser padrinho dum dos seus filhos.”

 De acordo com o informe do Marquês de Fronteira ( obra citada, pp 32 e 33), já consumada a invasão de Portugal pelas tropas napoleónicas comandadas por Junot, Gomes Freire  foi impedido de as defrontar, apesar das forças de Junot rondarem apenas os seis mil homens, que entraram em Lisboa quase todos descalços, e só a guarnição de Lisboa comandada pelos Generais  Marquês de Alorna e Gomes Freire dispor de oito mil homens que, sem grandes dificuldades, poderiam ter derrotado os franceses, como pretendiam.

            Além do Marquês de Fronteira, também ANA CRISTINA BARTOLOMEU DE ARAÚJO, no seu texto inserido no V volume da HISTÓRIA DE PORTUGAL, de José Mattoso, informa ( pp 22 e 23) como  o General Gomes Freire,  comandante do Regimento de Infantaria nº 4, apoiado pelo duque de Sussex, filho do rei de Inglaterra, mandou prender um tenente francês, ajudante do conde Novion, comandante da Guarda Real da Polícia, num momento de tensão político- militar conhecido por “ motins de Campo de Ourique”, no qual Gomes Freire procurava enfraquecer a crescente influência na corte do  chamado “partido francês”.

Isto basta para demonstrar que VPV  falsifica a verdade histórica.

Uma falsificação e uma calúnica que representam o modo de agir do clero e da nobreza ultramontanos, precisamente aqueles que mais contemporizaram com o poder francês e foram responsáveis pelo triunfo, ainda que temporário, da primeira invasão francesa, como antes fica demonstrado.

E  qual porquê dessa calúnia?

Porque Gomes Freire de Andrade foi Gão-Mestre da Maçonaria Portuguesa, daquela corrente maçónica que, embora ligada à Inglaterra, lutou contra a tirania e o obscurantismo do clero e da nobreza tradicionais, os primeiros  responsáveis da nossa decadência como nação.

 Por isso, ainda hoje, e  de modo recorrente, os herdeiros desse clero e dessa nobreza, entre os quais se inclui VPV, continuam a caluniar esse grande patriota e libertador que foi Gomes Freire de Andrade.

(continua).



publicado por henrique doria às 00:41
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